
No CCJF, monólogo “A Hora do Boi” volta aos palcos com reflexão sensível
No dia 13 de janeiro, a peça teatral A Hora do Boi retornou aos palcos. Desta vez, no Teatro do Centro Cultural Justiça Federal (CCJF), marcando uma nova temporada do espetáculo no Rio de Janeiro. Com direção de André Paes Leme e texto de Daniela Pereira de Carvalho, a apresentação acompanha a trajetória de “Seu Francisco”, tratador e capataz de um matadouro. A narrativa se constrói a partir da relação de amizade e afeto que ele desenvolve com Chico, um boi criado por ele. Diante da inevitabilidade do abate do animal, o protagonista se vê em um dilema moral, que coloca em conflito o dever profissional e os vínculos afetivos construídos ao longo do tempo.
No palco, o ator Vandré Silveira sustenta sozinho o monólogo, interpretando três personagens distintos: “Seu Francisco”, o homem; Chico, o boi; e São Francisco, o santo. A atuação se destaca pela precisão na construção de cada personagem, permitindo ao espectador identificar com clareza as transições entre eles, a partir de gestos, corporalidade e da maneira de falar — mesmo que o ator o faça de maneira discreta em determinados momentos. Chico, o boi, é construído de uma certa lucidez, ao mesmo tempo que sustenta uma postura infantil, como a de um filho. Já “Seu Francisco” é uma figura áspera e submissa, reforçando a inversão proposta pela peça, na qual o animal demonstra ser mais atento e sensível do que o ser humano.
Ao longo da apresentação, o isolamento vivido por Chico (enquanto boi) em uma fazenda evidencia uma realidade que reflete a relação na atualidade entre humanos, animais e o mundo, tema central do espetáculo. “A Hora do Boi é um espetáculo que escancara a relação predatória do ser humano com o planeta e os outros seres vivos e a urgência de transformação. A empatia como caminho para essa mudança. Assim que comecei o processo de ensaios, em 2023, eu parei de comer carne. Foi um processo natural. A discussão está para além do consumo de carne, questionamos nossa relação com nossos semelhantes, seres humanos, com os animais e com o planeta. É muito satisfatório perceber as pessoas reconsiderarem a suposta superioridade humana sobre as outras espécies, a partir do contato com esta história entre um homem e um boi. Buscamos evidenciar o equívoco desse pensamento antropocêntrico e especista que atribui menor valor a seres de outras espécies como justificativa para subjugar e explorar”, destacou Vandré Silveira.
A nova temporada no CCJF também representa um momento de renovação artística para o espetáculo, que passa a ocupar, pela primeira vez, o centro da cidade. “A beleza do fazer teatral é que sempre acessamos algo novo. E no CCJF temos a possibilidade de alcançar novas descobertas. Amadurecemos com o tempo e o trabalho também amadurece. É a primeira vez que fazemos a peça num palco italiano e isso também trouxe um frescor, no sentido de descobrir uma nova relação espacial com o público. Também é a primeira vez que nos apresentamos no Centro do Rio. A temporada começou muito bem! O Teatro do CCJF é lindo, aconchegante e abraçou o espetáculo”, disse Vandré, animado.
Ao voltar aos palcos em um novo espaço, A Hora do Boi mostra que segue atual e necessária. Com uma história simples, mas carregada de significado, o espetáculo convida o público a repensar hábitos, afetos e a forma como nos relacionamos com os outros seres e com o mundo. No CCJF, a peça se renova e reforça o teatro como um lugar de encontro, reflexão e diálogo.