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Entre Terra, Corpo e Memória: o Festival Raízes como Prática de Sustentabilidade Cultural

Publicado em:
10/02/2026
A imagem mostra três mulheres em ambiente natural, posicionadas lado a lado entre árvores e vegetação. Elas sorriem para a câmera, transmitindo proximidade e acolhimento. A mulher à esquerda usa adornos coloridos e um cocar floral, a do centro veste roupas claras com tons amarelos, e a da direita usa óculos e roupas em tons terrosos. O cenário arborizado e a luz natural criam uma atmosfera leve, afetiva e integrada à natureza.
Por Allegra Ceccarelli, Lucia Tucuju e Jane Santos

Sustentar a vida implica sustentar relações. Relações entre corpos e territórios, entre memória e presença, entre temporalidades ancestrais e práticas contemporâneas. Em diversas culturas originárias, a existência humana não se concebe de forma dissociada da terra: é no território que se inscrevem os saberes, os rituais, as formas de organização social e os modos de produção da vida. Nesse sentido, a sustentabilidade não pode ser compreendida apenas como gestão de recursos, mas como uma prática relacional que envolve cultura, natureza e ancestralidade como dimensões inseparáveis.

No contexto brasileiro, marcado por processos históricos de colonização, apagamento e violência epistêmica, a sustentabilidade cultural emerge como um campo fundamental de resistência e reinvenção. A diversidade cultural que conforma o país, resultante de matrizes indígenas, africanas, europeias e de múltiplos atravessamentos, constitui um sistema vivo, constantemente ameaçado por modelos hegemônicos de desenvolvimento que operam a partir da ruptura dos vínculos com a terra e da mercantilização da vida. Como aponta Ailton Krenak (2019), a separação radical entre humanidade e natureza, promovida pelo projeto moderno, sustenta uma lógica de exaustão do mundo, na qual a Terra é tratada como objeto e não comosujeito de relação.

As cosmologias animistas, presentes em distintas culturas originárias e afro-diaspóricas, oferecem um aporte conceitual relevante para essa reflexão. Nelas, a vida não se restringe ao humano, mas se estende a rios, plantas, solos, objetos e elementos naturais, todos compreendidos como portadores de agência, memória e espiritualidade. Essa ontologia relacional funda uma ética do cuidado baseada na reciprocidade: o cuidado com a terra é indissociável do cuidado com o corpo; a preservação da memória é condição para a continuidade da vida; a sustentabilidade é concebida como equilíbrio dinâmico entre seres humanos e não humanos. Arturo Escobar (2018) propõe compreender essas perspectivas como ontologias relacionais, nas quais o mundo é constituído por redes de interdependência, em oposição à visão moderna que fragmenta natureza, cultura e sociedade.

A partir dessa perspectiva, práticas culturais e artísticas podem ser compreendidas como dispositivos de sustentabilidade cultural. Rituais, artes do corpo, fazeres artesanais, culinária tradicional, oralidade e ocupações coletivas do espaço público não apenas expressam identidades, mas produzem pertencimento, reforçam laços comunitários e atualizam saberes ancestrais em diálogo com o presente. Cultura, nesse sentido, opera como tecnologia de cuidado, capaz de sustentar a vida em suas dimensões simbólica, material e relacional.

A ocupação do espaço urbano por essas práticas adquire uma dimensão política e territorial relevante. A rua, frequentemente pensada como espaço funcional e de circulação, torna-se lugar de memória, disputa e reativação simbólica. No caso do Festival Raízes, realizado nos dias 11 e 12 de dezembro de 2025, na Rua Pedro Lessa e no Centro Cultural Justiça Federal, na região da Cinelândia, essa dimensão se intensifica. Trata-se de um território que, antes da consolidação do projeto urbano colonial e republicano, foi espaço de presença indígena, de aldeamentos, circulação e vida comunitária.

Ao longo do tempo, esse mesmo território tornou-se também espaço de existência de sujeitos historicamente marginalizados pela ordem social urbana. A região central do Rio de Janeiro foi profundamente marcada pela presença da malandragem carioca, figuras que, rejeitadas pelos padrões normativos de trabalho, moralidade e pertencimento, encontraram na rua um lugar de sobrevivência, circulação e invenção de modos próprios de viver a cidade. Nesse imaginário popular e espiritual, entidades como Zé Pelintra e Maria Navalha emergem como símbolos dessa experiência urbana: personagens que transitam entre o sagrado e o profano, entre a exclusão social e a afirmação de dignidade, entre o corpo vulnerável e a astúcia como estratégia de vida, conforme explicitado na Palestra de Fabio Feliciano.

A Cinelândia contemporânea, marcada pela verticalização, pelo concreto e pela intensificação dos fluxos urbanos, repousa, portanto, sobre múltiplas camadas de ancestralidade. Não apenas indígena, mas também popular, afro-diaspórica e urbana. O processo de modernização operou o apagamento dessas presenças, substituindo narrativas e silenciando histórias que não se enquadravam nos projetos oficiais de cidade. No entanto, essas memórias persistem no território, inscritas nos corpos, nos gestos, nas práticas culturais e nas espiritualidades que seguem ocupando a rua como espaço de existência.

Realizar um festival dedicado à ancestralidade, à diversidade cultural e à relação com a natureza nesse espaço configura-se, assim, como um gesto de reterritorialização simbólica. Ao ativar práticas culturais enraizadas tanto em saberes originários quanto em tradições populares urbanas, o Festival Raízes produz uma forma de cuidado territorial e de reparação simbólica. Trata-se de uma ação de cura coletiva para o espaço urbano, para o público, para as instituições culturais do entorno e para as memórias daqueles que, humanos e não humanos, visíveis e invisibilizados, fizeram da rua seu lugar de vida.

Mais do que um evento artístico, o Festival Raízes constituiu-se como uma experiência relacional e processual. Arte, artesanato, culinária, dança, música, palavra e pesquisa cultural foram mobilizados não como produtos culturais, mas como práticas de encontro. O que se configurou foi um território temporário de sustentabilidade cultural em ação, no qual o fazer manual, o tempo desacelerado e a troca direta se afirmaram como contrapontos à lógica de aceleração, consumo e esgotamento que caracteriza o modelo urbano contemporâneo.

Ao articular diferentes linguagens e saberes a partir de uma ética comum, o respeito à ancestralidade, à diversidade e à vida em suas múltiplas formas, o festival evidenciou a potência das práticas culturais como agentes de transformação social. O encontro entre corpos diversos, histórias plurais e saberes historicamente marginalizados produziu um espaço de reconhecimento mútuo, no qual a diferença opera como força de construção coletiva, e não como elemento de fragmentação.

Nesse contexto, a sustentabilidade deixa de ser um conceito abstrato e se materializa em práticas situadas, no gesto, na presença e na partilha. Sustentar a cultura implica sustentar territórios, relações e ecossistemas, reconhecendo, como afirma Krenak (2019), que não há futuro possível se continuarmos contando uma única história sobre o mundo.

Entre terra, corpo e memória, o Festival Raízes aponta para a necessidade de compreender a sustentabilidade como prática ética e política do cuidado. É nesse horizonte ancestral, coletivo e continuamente atualizado que se delineiam caminhos possíveis para enfrentar os desafios contemporâneos e imaginar formas mais justas de habitar o mundo.