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Entre técnica e emoção: Ana Paula Cruz grava álbum ao vivo em noite de pura brasilidade no CCJF

Publicado em:
10/12/2025
A imagem mostra um grupo de seis músicos se apresentando em um palco iluminado por luzes azuis. Da esquerda para a direita, há um tecladista, um guitarrista, uma flautista ao centro, seguida por um baterista, um percussionista e um saxofonista. Eles tocam diante de uma plateia em um teatro, com microfones e equipamentos distribuídos pelo palco. A cena transmite clima de show ao vivo e envolvimento musical.
Ana Cruz e banda no palco do CCJF: uma noite potente e brasileira

Na noite de quinta-feira, 27 de novembro, o Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) se transformou em um espaço de pura celebração da música e da brasilidade durante a gravação ao vivo do álbum YBYTU - O sopro divino, de Ana Paula Cruz. O teatro recebeu um público atento e emocionado, que se entregou à combinação única de música erudita, ritmos populares e influências afro-brasileiras. Com presença e energia contagiante, Ana Paula conduziu a plateia por um repertório diversificado, que passeou por Belchior, Baden Powell, Iza e Emicida, provando que sua música é ao mesmo tempo técnica, sensível e profundamente conectada com a sua histórias e vivência enquanto mulher negras no Brasil.

A apresentação começou de forma envolvente: Ana Paula surgiu no palco pelas coxias do teatro, caminhando enquanto começava a cantar a primeira música de seu álbum. Na sequência, ela apresentou os músicos que a acompanhariam — Luis Houtet (guitarra), Daniel Esperança (piano), Lourenço Matheus (baixo), Julia Rodrigues (bateria) —, mesclando momentos de introdução musical com histórias pessoais. Entre risadas e conversas descontraídas, Ana Paula revelou sua genuína surpresa ao se deparar com uma plateia tão cheia e animada e se emocionou ao reconhecer rostos conhecidos, vindos de diferentes fases e aspectos de sua vida. 

O repertório do álbum percorreu diversos universos musicais, transitando por samba, jazz, bossa nova, rock, ijexá e ritmos de matriz africana. Segundo Ana Paula, a escolha das músicas se deu por afinidade e afeto musical, mas teve seus desafios. “O 1º deles foi pensar num repertório. Eu tinha 30 músicas que desejava gravar mas tive que reduzir para 10. O 2º foi achar um parceiro que pensasse musicalmente parecido com meu estilo. Encontrei o Luis Houtet, um arranjador e guitarrista que tem uma sensibilidade única. Tivemos várias reuniões para definir os arranjos e as sonoridades. Creio que o último desafio foi controlar a emoção durante o show. Sou muito expansiva e vibrante. Muitas vezes fico com receio de gastar toda a energia na 1ª música e não sobrar nada pra depois”, frisa. Mesmo diante de tantos desafios, a musicista conseguiu equilibrar técnica e emoção, oferecendo ao público uma apresentação com muita sensibilidade.

A noite também teve momentos de comoção e reflexão. Ana Paula compartilhou experiências de vida como mulher negra, lésbica, gorda e candomblecista, conectando sua trajetória pessoal com a valorização das culturas marginalizadas e a brasilidade. “Não dá pra você nascer no Brasil e não saber tocar um samba, choro,  maracatu, baião... eu comecei a frequentar os coletivos de mulheres em busca de mergulhar nesse estudo de brasilidade. Fora isso, eu sou do Candomblé. A minha religião é algo muito forte. Não existe culto ao orixá sem o toque do tambor. Creio que tudo isso se juntou nesse trabalho de agora”. Ela explicou como, após uma formação erudita intensa, estudando métodos estrangeiros e passando por todas as etapas exigidas a um instrumentista clássico, sentiu, nos últimos 10 anos, a necessidade de alimentar sua alma com ‘frutos do seu país’”. 

Ao final da noite, ficou claro que a gravação de YBYTU - O sopro divino no CCJF não foi apenas um registro musical, mas uma celebração da trajetória de Ana Paula Cruz e de tudo que ela representa artisticamente e pessoalmente. A performance evidenciou sua capacidade de unir técnica e sensibilidade, erudição e brasilidade, além de transformar experiências de vida em música que emociona e provoca reflexão. Para o público presente, a gravação foi uma experiência intensa, marcada por momentos de alegria e surpresa, e deixou a expectativa de que o álbum, ao ser lançado, seguirá espalhando a força, a diversidade e a ancestralidade que permearam cada acorde da noite.