
Eles Não Usam Black-Tie atravessa gerações e provoca reflexões no CCJF
Eles Não Usam Black-Tie chegou ao último fim de semana de apresentações no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) com o Teatro lotado. Escrito por Gianfrancesco Guarnieri e, considerado um dos grandes clássicos da dramaturgia brasileira, o texto encontrou novamente, no palco, espaço para discutir questões que permanecem atuais, como desigualdade social, direitos dos trabalhadores, pertencimento e o conflito entre projetos individuais e coletivos.
Sob a direção de João Velho, a montagem acompanha uma família de trabalhadores que vive em uma comunidade operária e se vê diretamente envolvida na organização de uma greve por melhores salários. É dentro da casa dessa família que se desenvolve a ação e para onde convergem as notícias, expectativas e tensões de toda a comunidade.
No centro do conflito estão Otávio e seu filho Tião, interpretados por Pedro Rocha e Nino Batista. Enquanto o pai participa ativamente da mobilização dos trabalhadores, Tião começa a questionar o caminho coletivo diante de uma transformação em sua vida pessoal: Maria (Tai Xavier), sua namorada, está grávida, e o casal planeja se casar.
O desejo de proporcionar à futura família uma vida diferente daquela que conhece coloca Tião diante de uma escolha que determinará seu destino. Ao decidir não aderir à greve, ele rompe não apenas com os companheiros de trabalho, mas também com valores profundamente compartilhados pela família e pela comunidade em que cresceu.
A decisão expõe uma das tensões que dão força ao texto de Guarnieri. De um lado, a solidariedade entre trabalhadores e a percepção de que determinadas conquistas dependem da ação coletiva. De outro, os sonhos individuais de alguém que deseja escapar de uma realidade marcada por limitações econômicas e ampliar as possibilidades para si e para a família que começa a construir.
Para Isabela Starepravo, que já havia lido “Eles Não Usam Black-Tie” na escola, assistir à peça anos depois trouxe uma nova percepção sobre o personagem. “Acredito que consegui ver melhor o lado do Tião. Antes me pareceu que ele era um vilão apenas; hoje já o enxerguei como alguém que fez o que achou que precisava diante de circunstâncias de vida das quais ele, nem ninguém da família, teve culpa”, conta.
O conflito ganha outra dimensão na relação com Maria. Para Tião, deixar a comunidade representa a possibilidade de começar uma nova vida. Para ela, porém, partir significaria também abandonar seus vínculos e o lugar ao qual pertence. As diferentes perspectivas fazem com que a escolha de Tião ultrapasse a questão da greve e coloque em discussão também assuntos como identidade, pertencimento, ambição e os limites entre realização pessoal e responsabilidade coletiva.
Ao redor dos dois, a vida cotidiana segue atravessada pelas questões políticas e sociais. Entre tarefas domésticas, conversas familiares, preparativos para o casamento e notícias sobre a mobilização dos trabalhadores, a casa se transforma no ponto de encontro entre o íntimo e o coletivo. É nesse espaço que as consequências da greve deixam de ser abstratas e passam a interferir diretamente nos afetos e nas relações familiares.
Décadas depois de sua estreia, Eles Não Usam Black-Tie continua provocando o público ao colocar em confronto diferentes maneiras de imaginar uma vida melhor. Na visão de Isabela, embora as relações de trabalho tenham se transformado desde que Guarnieri escreveu a peça, os conflitos apresentados permanecem reconhecíveis. “As questões se complexificaram com a uberização do trabalho, mas as lutas precisam continuar, e o texto e as personagens poderiam facilmente retratar os dilemas atuais de uma família brasileira em situação de precariedade.”
De acordo com o diretor João Velho, a atualidade da obra também passa pela maneira como grandes questões sociais atravessam a vida de uma família comum. “É uma peça que se passa dentro do barraco, com a família ali se relacionando. Então traz essa família brasileira, o homem comum, a mulher comum”, afirma. Segundo ele, textos como Black-Tie passam por momentos de maior ou menor ressonância ao longo do tempo, e o contexto atual voltou a aproximar a obra do público. “Agora a gente está vivendo um momento de novo em que o texto ganha muita força. É como se ele tivesse sido escrito ontem.”
A temporada de Eles Não Usam Black-Tie esteve em cartaz no Teatro do CCJF de 7 a 30 de agosto, com realização da Hassis Produções. E uma boa notícia: a previsão é que a peça volte aos palcos do CCJF em breve. Vamos aguardar!