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Democracia se aprende

Por Maria de Oliveira, diretora da Divisão de Cultura do Centro Cultural Justiça Federal
Publicado em:
10/03/2026
Fotografia de retrato de Maria de Oliveira, diretora da Divisão de Cultura do Centro Cultural Justiça Federal. Ela é uma mulher de pele clara, com cabelos longos e escuros, usando óculos de armação escura e brincos de argola. Sorri olhando para a câmera, com o rosto levemente voltado para o lado. Veste uma blusa laranja. Ao fundo, desfocado, há vegetação e um espaço ao ar livre iluminado pela luz do dia.

"Espaços culturais não substituem instâncias jurídicas, mas contribuem para a formação de consciência crítica, condição indispensável para qualquer sociedade que pretenda se afirmar democrática."

Março costuma ser tratado como um tempo de celebração. Recordam-se conquistas, reafirmam-se direitos, destacam-se trajetórias que ampliaram a presença das mulheres na vida pública. A celebração é justa e necessária. Não esgota, porém, os sentidos da data.

 

Este ano, o mês é atravessado por episódios que expõem, de forma inquietante, a persistência da violência de gênero e a fragilidade de estruturas que deveriam proteger meninas e mulheres. Quando a violência se banaliza e o poder institucional é utilizado para constranger ou silenciar, não é apenas a vítima que sofre: é a própria confiança pública que se deteriora.

 

A ampliação da presença das mulheres nos espaços de poder é uma conquista histórica e inegociável. Ela corrige exclusões estruturais e amplia perspectivas na vida institucional. No entanto, a consolidação democrática não se esgota na representatividade formal. Exige também transformação nas práticas e nas culturas institucionais, assim como nos processos formativos que moldam nossa compreensão de autoridade e responsabilidade.

 

Enquanto persistirem padrões educativos que naturalizam hierarquias de gênero e associam poder à dominação, a igualdade permanecerá incompleta. A democracia depende não apenas de quem ocupa os cargos, mas também de como aprendemos, desde cedo, a exercer o poder e a reconhecer seus limites.

 

Marilena Chauí, filósofa brasileira que há décadas reflete sobre democracia e autoritarismo no país, lembra que ela não é apenas um regime político: é uma forma de sociedade. Sustenta-se, portanto, em processos formativos contínuos. Não basta garantir direitos em abstrato: é preciso formar sujeitos capazes de reconhecê-los, exercê-los e defendê-los com responsabilidade.

 

Nesse horizonte, a cultura ocupa lugar estratégico. É no campo simbólico que a violência pode ser nomeada, narrativas podem ser revistas e silêncios históricos podem ser rompidos. Espaços culturais não substituem instâncias jurídicas, mas contribuem para a formação de consciência crítica, condição indispensável para qualquer sociedade que pretenda se afirmar democrática.

 

A partir dessa perspectiva, insere-se a Mostra Mulheres em Cena, idealizada pela equipe da Divisão de Cultura do CCJF, mulheres atentas às questões do seu tempo, em um contexto marcado por conquistas importantes, mas também por desigualdades persistentes e pela violência de gênero, que continua produzindo consequências graves. A programação apresenta eventos diversos com temas como memória, ancestralidade, denúncia, afeto e resistência, articulando narrativas que partem da experiência vivida e das raízes culturais para pensar o presente. Nesse cenário, a cultura se afirma como espaço de elaboração e diálogo.

 

Ao reunir expressões artísticas diversas, a mostra propõe que celebrar as mulheres é também confrontar as estruturas que insistem em negá-las. É reconhecer a arte como um território de resistência e transformação, em que a experiência feminina não é reduzida nem romantizada, e tampouco silenciada.

 

Que março não se encerre no calendário, mas se traduza em compromisso contínuo com a democracia que ainda estamos aprendendo a sustentar.