
Deixa eu dizer que te amo: entre a cura e a aceitação
Durante o mês de outubro, o Teatro do Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) foi palco do espetáculo Deixa eu dizer que te amo, peça teatral que fala sobre cuidado, autoestima e afeto, dirigida por Stephanie Dourado, com texto de Gabriela Januário.
O espetáculo, estrelado por cinco atrizes, retrata as fases da vida das personagens que são representadas pelos cinco estágios do luto. Essas histórias passam pela negação de aceitarem a realidade que viveram, a raiva por perceberem o lugar em que foram colocadas por anos de opressão, a barganha, quando tentam se reconciliar com suas dores, a depressão, quando revelam as consequências da exclusão social e, finalmente, a aceitação, quando finalmente entendem que podem, sim, encontrar felicidade sendo elas mesmas. As agressões são cotidianas e, muitas vezes, sutis, mas causam grande dano psicológico em quem as sofrem e geram comportamentos autodestrutivos nas personagens. Durante o processo de cura, as boas companhias são essenciais para mostrarem que as personagens merecem viver com dignidade e afeto e que, além disso, um corpo fora do padrão merece ser tratado com respeito.
A presença musical foi um ponto marcante na apresentação. A cada cena, as músicas cantadas traziam um tom íntimo e comovente, combinando com as luzes e com o cenário, que ajudaram a criar uma atmosfera poética, fazendo o público se sentir pertencente à apresentação. Teve até quem participasse subindo ao palco em uma das cenas. A escritora Luana Carvalho, que foi convidada a contribuir, compartilhou a importância da peça e como ela se sentiu representada. “Eu me identifico com tudo, porque é uma história que todas as mulheres, mas sobretudo as mulheres fora do padrão, passam. Desde a infância, aprendemos que o nosso corpo é um problema a ser resolvido e, se não resolvemos, sofremos as consequências de não ter resolvido. É também uma falta de entendimento, até biológico, de que existem corpos que nunca serão magros. Eu me emocionei várias vezes com o espetáculo. É um espetáculo que todo mundo deveria ver, mas sobretudo as mulheres, principalmente aquelas fora do padrão, então, eu recomendo a todos”, declarou a escritora.
A atriz Gabriela Januário falou sobre a experiência de se apresentar no CCJF e a importância de ter uma cadeira acessível para pessoas obesas no teatro, além de relatar como o espetáculo impacta a vida das pessoas. “Gostaríamos de ressaltar algo que nos agradou bastante, que foi o conforto das cadeiras e a existência de uma cadeira digna para obesos. Nosso espetáculo fala justamente sobre essa temática, então ficamos felizes que o Centro Cultural Justiça Federal esteja sendo acessível. Deixa eu dizer que te amo surge para lembrarmos a importância de nos tratarmos com carinho e não deixarmos que a opinião alheia seja dominante. Um espetáculo de resgate de memórias e muito afeto. Obrigada por permitirem e contarem essa história conosco, até breve”, contou a atriz.
Deixa eu dizer que te amo é um relato sensível e profundo sobre como corpos gordos são tratados com desdém e como isso afeta diretamente na autoestima de mulheres que não são vistas com bons olhos pela sociedade. É um lembrete de que todas as pessoas merecem ser amadas e cuidadas, principalmente por si mesmas, e um alerta sobre a importância de ter uma boa rede de apoio durante a jornada do autoconhecimento.