
Confluência pela Imagem Disruptiva: quando moda, identidade e cultura se encontram no coração do Rio
"(...)'pensar a moda' com um olhar interseccional significa reconhecer que nenhuma recomendação de estilo existe fora de um contexto de como você manifesta sua corporeidade, isto é: de gênero, raça, classe e território."
Há encontros que não se planejam completamente. Que surgem da soma de uma intenção genuína, de um espaço que acolhe e de pessoas que chegam prontas para se mover. O projeto Confluência é, em sua essência, esse tipo de encontro.
Inspirado nos diálogos do mestre Antônio Bispo dos Santos (o Nego Bispo ) em A Terra Dá, a Terra Quer, o Confluência nasce da compreensão de que moda, cultura e identidade não são territórios separados, mas fios de um mesmo tecido. A proposta é simples e, ao mesmo tempo, profunda: criar um espaço em que seja possível viver o exercício da cidadania de forma leve, plural e afetiva, onde o que se veste é uma extensão do que se é, e não uma performance do que se deveria ser.
Ao longo de cinco edições, o projeto percorreu espaços de referência cultural no Brasil. Passou pelo primeiro museu público de moda de Minas Gerais (MUMU) , pelo Circuito Cultural da Praça da Liberdade, chegou ao Rio de Janeiro em edição anterior pelo Rio2C e retornou à capital fluminense em abril de 2026, desta vez no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF), como parte da programação de 25 anos da instituição e em diálogo com a semana de moda do Rio.
Um prédio que também é memória — Chegar ao CCJF é, antes de tudo, um ato de reconhecimento. O edifício da Avenida Rio Branco, 241, projetado pelo arquiteto Adolpho Morales de Los Rios e inaugurado em 1909, carrega em cada detalhe a complexidade do Brasil que se construía e que ainda se constrói. A escadaria de mármore de Carrara, o ferro trabalhado em estilo Art Nouveau, os vitrais e os painéis de Rodolfo Amoedo fazem do espaço um objeto de arte em si mesmo. Foram décadas de história sedimentadas nas paredes: o prédio abrigou o Supremo Tribunal Federal até a transferência da capital para Brasília, em 1960, e guarda em seu interior marcas de julgamentos que tocaram profundamente a memória nacional, como o da revolucionária Olga Benário, que passou por aquelas salas promovendo reflexão do papel da justiça até hoje.
A visita orientada que abriu o evento fez questão de materializar essa história. Muitos dos participantes, cariocas da gema, confessaram nunca ter atravessado aquelas portas , um fenômeno comum: passamos anos diante de monumentos sem habitá-los. O Confluência propôs, naquele dia, que a ocupação desse espaço fosse também um gesto político e afetivo.
O presente inesperado: Lélia Gonzalez no mesmo tempo e lugar — Não estava no roteiro original, mas estava no destino: o CCJF recebia, naquele período, uma exposição temporária dedicada a Lélia Gonzalez — intelectual, antropóloga, militante e uma das pensadoras mais potentes que o Brasil produziu. Para mim, que idealizei o Confluência e que há anos me debruço nos estudos de interseccionalidade aplicados à consultoria de imagem, a coincidência foi mais do que simbólica.
Lélia Gonzalez é uma das referências centrais para pensar como raça, gênero e classe se entrecruzam nos modos de existir e de se apresentar ao mundo. Sua obra atravessa diretamente o que o Confluência se propõe a construir: um olhar para a imagem que não é neutro, que não é universal, que é situado e plural. Estar naquele espaço, naquele momento, compartilhando o mesmo aniversário com Lélia, foi um presente que o projeto não esperava e que chegou como uma confirmação.
Imagem disruptiva: a palestra que abre o campo — A parte expositiva do evento, conduzida por mim, apresentou os fundamentos da metodologia da Imagem Disruptiva, uma abordagem que parte do pressuposto de que a construção da imagem pessoal deve ser guiada por quem se é, e não por quem se espera que alguém seja.
No papo, conversamos sobre o que seria “pensar a moda” com um olhar interseccional. Isso significa reconhecer que nenhuma recomendação de estilo existe fora de um contexto de como você manifesta sua corporeidade, isto é: de gênero, raça, classe e território. Significa também reconhecer que os dons e os talentos de uma pessoa podem, e devem, encontrar forma através do que ela veste. Não como fantasia, mas como linguagem.
O público que chegou ao CCJF naquele dia não foi aleatório. Uma das características mais marcantes do Confluência é essa reciprocidade entre o evento e quem o escolhe: não é um evento para qualquer perfil, e ao mesmo tempo é completamente aberto. O que o torna singular é o nível de consciência de quem aparece: majoritariamente mulheres, em toda a sua diversidade de corpos, raças, afetos e trajetórias, com uma maturidade que não se mede apenas em anos de vida, mas em disposição real para o encontro. Gente que gosta de gente.
As convidadas: quando a trajetória fala mais alto que o currículo — A roda de diálogo que se seguiu reuniu duas mulheres cuja presença ali dizia muito sobre o que o Confluência entende por potência.
O projeto não convida pessoas para falar de dificuldades. Convida para falar de soluções, de conquistas, de como cada uma delas, a partir de quem é, construiu algo que interessa ao mundo. Isso também é disrupção: romper com a expectativa de que mulheres diversas reunidas em torno de moda e gastronomia precisam, necessariamente, habitar o espaço da dor.
Andressa Cabral é chef de cozinha e pesquisadora e empresária, à frente do Yayá Comidaria Pop Brasileira, recentemente reconhecida pelo Guia Michelin 2026 entre os restaurantes recomendados do Rio de Janeiro. Andressa compreende seus ingredientes desde a terra até a mesa, e desde a mesa até o descarte, num entendimento de cultura e design que vai muito além do glamour de uma premiação.
Carol Lardoza é historiadora de moda graduada pela UFRJ, pesquisadora que investiga como as roupas revelam interseções de gênero, classe e raça ao longo da história brasileira. Nascida e criada em Bangu, zona oeste do Rio, ela constrói um trabalho que reposiciona a periferia e a circularidade das roupas como objetos legítimos de pesquisa e como expressão de uma inteligência criativa. No mesmo período, Carol participava das atividades da Rio Fashion Week e se desdobrou para estar presente no Confluência. Esse gesto já diz algo sobre o tipo de encontro que o projeto provoca.
A oficina: quando a teoria encontra o corpo — O encerramento do evento se deu em movimento. Na oficina de estilo conduzida por Laís de Souza e Aline Vitorino, duas profissionais formadas dentro da metodologia da Imagem Disruptiva e suporte fundamental desta edição carioca, as participantes foram convidadas a construir painéis estéticos que não apontavam para um ideal de moda, mas para a própria experiência de cada pessoa presente.
Linhas, formas, texturas e cores como linguagem do que se pulsa, do que se sente, do que se é. Um mood board não como aspiração, mas como espelho. A oficina funcionou como a síntese de tudo que o dia havia proposto: começar pela história do lugar, atravessar a teoria, ouvir quem fez e, por fim, fazer.
O que o Confluência abre — Levar este projeto de Minas Gerais para o Rio de Janeiro, de forma independente, com entrada gratuita e abertura genuína ao público, é também uma declaração. De que esses diálogos precisam circular. De que a democratização da moda e da cultura não é slogan e precisam de um método para sair do campo discursivo e se materializar de forma estética.
O CCJF acolheu o Confluência com uma generosidade que merece ser nomeada: desde Maria de Oliveira e Luciana Villar, da Divisão de Cultura do CCJF, até o suporte para visita orientada realizada por Wanderley Lemgruber e Joane Francis, do Setor Educativo do CCJF, além de toda a equipe da instituição, do staff à curadoria, fez com que cada participante se sentisse celebrada por ocupar aquele espaço. E é exatamente isso que o projeto espera provocar onde passa, que as pessoas sintam que têm direito a estar ali.
Que esta edição seja a primeira de muitas parcerias. Que as águas continuem a confluir.
Liliam Reis é consultora de imagem, pesquisadora e pioneira nos estudos de interseccionalidade aplicados à consultoria de imagem no Brasil. Idealizadora do projeto Confluência pela Imagem Disruptiva.