
Comunicação pública a serviço da memória nacional
"Os saberes e a cultura afro são intrínsecos à identidade brasileira. E a comunicação pública, como ferramenta estratégica que é, tem o dever de jogar luz sobre esse capítulo e impactar positivamente, promovendo a cidadania, o conhecimento e a cultura.
Desde que comecei a trabalhar com comunicação pública – lá se vão mais de 20 anos –, tenho em mente a preocupação de criar conteúdo que promova o acesso à informação correta e de qualidade, visando dar visibilidade a temas relevantes, de interesse público e de impacto social. Com esse espírito, idealizei na Assessoria de Comunicação Social do Conselho da Justiça Federal (ASCOM/CJF) o projeto de comunicação Valongo: Justiça pela Memória do Cais.
A iniciativa, desenvolvida com muita dedicação pelo time da ASCOM, que tenho o prazer e a honra de liderar, teve por base uma decisão judicial da Seção Judiciária do Rio de Janeiro com vistas a preservar a memória e o patrimônio histórico nacional. Todos os conteúdos produzidos estão disponíveis e podem ser acessados no site oficial Valongo: Justiça pela Memória do Cais. Convido os leitores deste texto a visitarem o portal.
No meu entendimento, preservar a memória da escravização no Brasil é algo muito importante para a cultura, para a educação e para a promoção da cidadania. O reconhecimento desse trágico e vergonhoso capítulo do nosso passado é essencial para entender o nosso presente, promover direitos à população negra, reduzir desigualdades étnico-raciais e avançar em termos de reparação histórica.
Para quem ainda não sabe, o Cais do Valongo é símbolo material do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas. Tornou-se referência para os estudos sobre a diáspora africana no século 21. O sítio arqueológico é reconhecido como Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
Na véspera do feriado nacional do Dia da Consciência Negra 2025, o Conselho da Justiça Federal (CJF) tornou pública a iniciativa da ASCOM com o lançamento de um livro e a inauguração de uma exposição digital no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF), no RJ. Os conteúdos são ilustrados com 12 aquarelas produzidas digitalmente pela servidora Maria Clara Teixeira de Assis, da ASCOM/CJF.
A exposição foi instalada na Galeria Cela, do CCJF, e é composta pela projeção das imagens (que integram o livro), intercaladas com informações sobre as quatro décadas de operação do Cais do Valongo. A mostra oferece aos visitantes uma experiência visual imersiva e conectada à história, à memória e à luta pela valorização do sítio arqueológico. Sugiro uma visita ao espaço até o dia 19 de dezembro. A entrada é gratuita, de terça a domingo, das 11h às 19h. As aquarelas dialogam diretamente com o legado do Cais do Valongo e convidam à reflexão sobre a ancestralidade africana e os marcos que estruturam a formação social brasileira. O conjunto visual é resultado de pesquisa, estudo e imersão. Cada obra busca recuperar, de maneira sensível, partes essenciais da nossa história e reforçar porque o Valongo não pode ser esquecido.
Sempre acreditei que o resgate da trajetória da escravização no Brasil implica em contribuir para o reconhecimento e a valorização da herança africana na formação da identidade cultural, social e econômica do nosso país. É preciso conhecer o passado para entender o presente e construir um futuro de igualdade e dignidade. Os saberes e a cultura afro são intrínsecos à identidade brasileira. E a comunicação pública, como ferramenta estratégica que é, tem o dever de jogar luz sobre esse capítulo e impactar positivamente, promovendo a cidadania, o conhecimento e a cultura.