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Entre a câmera e o personagem: os caminhos improváveis de um artista da periferia. Como a paixão pelo audiovisual me levou à atuação e me ensinou que viver da arte também é aprender a reinventar os próprios caminhos

Por Big Jaum | ator, humorista, criador de conteúdo e apaixonado por audiovisual 
Publicado em:
11/06/2026
Na foto, um homem negro, sem barba e de blusa branca olha atentamente para a câmera e faz um gesto com uma das mãos para a frente indicando certa cumplicidade.

Sou 'cria' de Guadalupe, último bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro. Cresci em um lugar onde talento e sonho quase sempre precisam percorrer um caminho mais longo para encontrar oportunidades. Diferente de muitos colegas de profissão, não me tornei ator porque esse era o meu plano inicial. Minha primeira paixão foi o audiovisual. Sou videomaker por formação e sempre fui fascinado pela capacidade que uma câmera tem de registrar histórias, emoções e realidades.

 

Foi durante a pandemia que a atuação entrou na minha vida. Com o isolamento social e as restrições de contato, gravar outras pessoas deixou de ser uma possibilidade. Para continuar praticando audiovisual, comecei a me gravar. O que surgiu como uma adaptação necessária, acabou revelando uma nova vocação. Aos poucos, a câmera que antes estava voltada para os outros passou a me colocar também diante dela.

 

Viver da arte, no entanto, nunca foi um caminho simples. A questão financeira esteve presente em todas as fases da minha trajetória. Na adolescência, quando me dedicava à música, e mais tarde, ao audiovisual, tanto atrás quanto na frente das câmeras. Durante muitos anos, o sonho precisou dividir espaço com as contas, as incertezas e a necessidade de encontrar meios para continuar produzindo e acreditando.

 

Pensei em desistir mais vezes do que gostaria de admitir. Mas o tempo me ensinou algo importante: ser exclusivamente ator ainda é um privilégio para poucos. Entender isso mudou minha relação com a profissão. Em vez de enxergar outras atividades como um desvio de rota, passei a vê-las como parte da construção da minha carreira. Investi na criação de conteúdo para redes sociais, me aproximei do stand-up comedy e ampliei minha atuação dentro do universo artístico. Quando a maré baixa em uma área, a outra ajuda a sustentar o barco. Essa compreensão trouxe mais equilíbrio e menos culpa.

 

Hoje, olhando para trás, vejo que cada etapa teve seu valor. Já são 15 trabalhos como ator entre séries, filmes e novela. Entre eles, destaco com muito carinho o filme Kasa Branca, uma experiência que marcou profundamente minha trajetória. Contracenar com artistas como Roberta Rodrigues, Guti Fraga e Babu Santana foi uma honra imensa. No filme, Babu interpreta meu pai, e dividir cenas com alguém que construiu uma carreira tão sólida foi também uma confirmação de que é possível sonhar com longevidade, consistência e relevância dentro da profissão.

 

Mas talvez a maior importância dessas conquistas esteja além do aspecto individual. O audiovisual brasileiro ainda é predominantemente ocupado por homens brancos, especialmente nos espaços de maior visibilidade. Por isso, cada artista oriundo da favela que consegue ocupar esses lugares ajuda a ampliar o horizonte de quem vem depois. Representatividade não resolve tudo, mas abre portas simbólicas muito importantes. Quando um jovem da periferia vê alguém parecido com ele protagonizando uma história, ele passa a enxergar possibilidades que antes pareciam reservadas a outras pessoas.

 

Felizmente, cada vez mais artistas das favelas e periferias estão escrevendo, dirigindo, atuando, produzindo e contando suas próprias histórias. E quando ampliamos quem pode contar histórias, ampliamos também as versões de Brasil que chegam ao público.

A arte transforma. Mas, para quem vem da periferia, ela também resiste, insiste e abre caminhos. Talvez seja por isso que continuar criando seja, para mim, mais do que uma profissão. É uma forma de existir e de imaginar futuros possíveis.

 

Talvez seja por isso também que eu tenha recebido com tanta gratidão minhas duas alegrias mais recentes. A primeira foi viver o personagem Donzy na novela Dona de Mim, mais um passo em uma caminhada que começou quase por acaso, diante de uma câmera ligada dentro de casa durante a pandemia. A segunda foi muito maior do que qualquer papel: quatro anos após o nascimento do meu primogênito, Guian, chegou João Júnior, meu segundo filho.

 

Hoje, quando penso no futuro, penso tanto nos personagens que ainda quero interpretar quanto no exemplo que desejo deixar para eles. Que cresçam sabendo que sonhar é importante, mas que persistir é indispensável. E que, mesmo quando os caminhos parecem improváveis, vale a pena continuar contando a própria história.