
Nobreza da Maré: a exaltação do Choro-canção em um espetáculo carregado de sensibilidade, poesia e memórias
Nos dias 29 e 30 de maio, Anna Paes, cantora, violonista e compositora, acompanhada de Carlos Chaves, violonista, cavaquinista e arranjador, integrante do Quarteto Maogani, estreou o show Nobreza da Maré, no Teatro do Centro Cultural Justiça Federal (CCJF). O espetáculo, que encantou o público que teve a oportunidade de assisti-lo, celebra o choro-canção como um dos pilares da cultura musical carioca. Ele foi construído, sensivelmente e cheio de afeto, a partir de vivências poéticas e musicais que nasceram da história familiar de Anna e mais de três décadas de vida no Rio de Janeiro. Para ela, o momento ficou marcado como uma das experiências mais significativas da trajetória artística. “O show nasceu do meu desejo de falar da minha relação com o choro pela expressão da voz cantada, uma relação que começou ainda menina, em Brasília, e que se aprofundou nos 36 anos que vivo no Rio”, conta.
O repertório atravessa clássicos de Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Tom Jobim e Carlos Lyra, a produção contemporânea de Hermínio Bello de Carvalho, Joyce Moreno, Chico Buarque, Edu Lobo e Guinga, e composições autorais — incluindo a estreia de Amor Constante, resultado da iniciativa de musicar a versão de Geraldo Carneiro para o Soneto 116, de Shakespeare. “Um arco que mostra a amplitude e a vitalidade do choro-canção como linguagem viva”, descreve Anna. No palco, junto com Chaves, ela construiu um diálogo sensível que se desdobrou em um ritual musical.
Sobre a concepção do show, a ideia foi criar uma alternância de sonoridades com a intenção de ampliar a escuta: ora em voz e violão, ora em voz e dois violões, ora em voz, violão e cavaquinho. Para o cantor e compositor Zé Geraldo, que acompanhado de sua esposa, Mônica Giacomini, saiu de São Paulo para assistir a apresentação no CCJF, o momento foi “carregado de emoção, com rico repertório de clássicos de domínio público, autorais e outros, nem tão populares, porém, de igual beleza.” “Já na abertura, uma declamação de Rosa de Hiroshima (Vinícius de Moraes) na voz do pai da Anna, tendo ao violão ela própria, então, com 15 anos de idade. Uma grata surpresa. Emocionante! A singularidade, a técnica, a emoção e o afeto, em sua delicada e linda voz, deram o tom dessa apresentação. Valeu a pena!”, destaca o compositor.
De ponta a ponta do espetáculo, dirigido por Germana Guilhermme, muitos momentos marcantes. Entre eles, o encerramento com Nobreza da Maré, choro autoral em parceria com Guinga e Simone Guimarães, escrito em homenagem à Marielle Franco, com a própria voz da ativista e vereadora do Rio (assassinada em 2018), ecoando no palco: "as rosas da resistência nascem no asfalto." Samuel Araújo, professor do Laboratório de Etnomusicologia da UFRJ, se disse impactado com o esmero, a sabedoria e a sensibilidade entrelaçados no emocionante show. “Reitero aqui, em sintonia com todo o grupo que me acompanhava, meus agradecimentos pela bela noite que nos proporcionaram”, ressalta.
Sobre a acolhida do CCJF, Anna torce para que esse intercâmbio entre instituição e artista independente continue se fortalecendo, para que a música brasileira tenha cada vez mais espaços onde possa acontecer com qualidade e dignidade. Para ela, é uma honra tocar no prédio histórico, com toda a visibilidade e o alcance institucional que o Centro Cultural possui. “O CCJF foi o lugar certo para esse encontro — e não é a 1ª vez. “É a 2ª parceria que realizo com o centro, o que reforça uma relação de confiança e afinidade artística que muito me alegra. Além dos shows, o projeto incluiu oficinas de violão e de choro-canção realizadas na sala de cursos, num ambiente pedagógico com valor acessível, ampliando o alcance do trabalho para além do palco”, frisa a artista.
Certamente, a programação do CCJF seguirá proporcionando aos visitantes momentos inesquecíveis como esses.