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Roda de Conversa Vozes pelo fim do feminicídio e outras violências contra a mulher clama a favor da luta feminina por justiça contra crimes de gênero

Publicado em:
10/04/2026
Roda de conversa “Vozes pelo fim do feminicídio e outras violências contra a mulher”, no cinema do CCJF. Sete mulheres estão sentadas no palco, em frente a uma plateia, participando do debate. Ao fundo, uma tela exibe o cartaz do evento. O ambiente é escuro, com iluminação focada nas participantes, criando clima de escuta e reflexão.
Da esquerda para a direita, Ana Paula Sales, Marcelle Esteves, Dalinha Catunda, Lea Carvalho, Beatriz Ras, Adriana Bodolay e Maria de Oliveira debatem sobre violência feminina e como combatê-la

Após inúmeros e tristes casos diários de violência contra mulher no país, debater sobre feminicídio e temas correlatos, em um espaço que respira cultura e democracia, se faz mais do que necessário. Pesquisa recente do Instituto DataSenado revela que 88% das mulheres já sofreram violência psicológica e que grande parte dos casos ocorre na presença de crianças; denúncias à Central de Atendimento à Mulher (180) subiram 33% em 2025. 

 

Quem esteve na Roda de Conversa, cordel, literatura. Vozes pelo fim do feminicídio e de outras violências contra a mulher, que aconteceu no último dia 25, no Cinema do Centro Cultural Justiça Federal (CCJF), teve a oportunidade de ouvir relatos fortes e comoventes de mulheres que já passaram por traumas e abusos e os usaram como fonte de superação para lutar contra a violência, seja física ou mental, de homens contra as mulheres. No âmbito da programação da Mostra Mulheres em Cena, mais do que conversar e denunciar o assunto, a roda ofereceu ao público informações importantes que podem ajudar a salvar vidas, caso a mulher reconheça os sinais da violência e saiba como procurar auxílio. Para Maria de Oliveira, Diretora da Divisão de Cultura do CCJF, esse é um papel importante de um Centro Cultural vinculado à justiça. “Que tenhamos a pretensão sincera de que seja um agente de mudança da sociedade. Sem esse tipo de atividade não faz sentido. Só lembrando que estamos fazendo esse evento no dia seguinte à criminalização da misoginia”, disse ao abrir o evento. 

 

A iniciativa contou com a participação de Adriana Bodolay, mãe, escritora e professora, Ana Paula Sales, presidente fundadora da Associação de Mulheres de Itaguaí Guerreiras e Articuladoras Sociais - A.M.I.G.A.S, Beatriz Ras, psicóloga, escritora e poeta, Lea Carvalho, professora da UERJ e produtora editorial, Marcelle Esteves, psicóloga, palestrante, especialista em Gênero, Raça, Sexualidades e Direitos Humanos e ainda, a cordelista Dalinha Catunda, 1ª mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Literatura de Cordel – ABLC. No encontro, Dalinha declamou um cordel sobre o tema. Em um dos trechos, a cordelista mostra a força feminina por meio de sua história de vida, citando o contraste entre o passado e os dias de hoje, não perdendo sua essência: “Hoje eu tenho o apoio do meu pai e minha mãe, abraçam-me meus amigos, abraçam-me meus irmãos, mas houve um tempo que eu era apenas uma maldição. Agora bem mais abastada do que nos tempos de outrora, quem me jogava pedra, agora chama senhora. E eu sou a mesma Dalinha, jamais mudei minha história."

 

Ana Paula, sobrevivente de uma tentativa de feminicídio, contou sobre como conseguiu que seu ex-marido e agressor fosse preso, depois de muitas batalhas tentando fazer justiça pelos crimes cometidos por ele contra ela. “Foi uma luta para que eu conseguisse prender o meu agressor (...) O delegado debochou da minha cara…depois, voltei ao Fórum e renovei o Mandado de Prisão e a Oficial de Justiça, dessa vez mulher, foi lá para efetivar o mandado. O lado político da cidade é machista, são homens que executam as políticas públicas. Depois de correr muito, após dois anos foi inaugurado na minha região (Itaguaí) o Centro Especializado de Atendimento à Mulher, algo que eu queria ter tido mas não tive”, conta Ana que nesse período montou a A.M.I.G.A.S, associação que protege e ajuda mulheres a ter seus direitos garantidos. 

 

Ela ainda dá uma dica valiosa para aquelas que estão passando por algum tipo de violência. “O primeiro instinto é ir na delegacia, mas temos que batalhar para conseguir provas, a primeira é fazer Boletim de Atendimento Médico (BAM), Pronto Socorro, público ou particular, e avisar que foi vítima de violência e pede um (BAM) para não perder tempo. Somos multiplicadores, nunca mande uma mulher ferida para delegacia, vá primeiro para o hospital. Na mesma hora o médico vai relatar o que aconteceu”, instrui. Ao contar seu relato pessoal, semelhante ao de Ana Paula, Adriana pontuou que não tinha a mínima noção de que vivia um relacionamento abusivo, sendo julgada e culpada de todos os problemas que o outro tinha, no caso também o ex-marido e agressor. “A gente acaba acreditando em todas aquelas falas negativas mas não acreditamos em nós mesmas. Não queria só sobreviver, queria que minhas filhas tivessem a oportunidade de viver sem o peso de acordar e ter que ser esmagada, às vezes não fisicamente, mas psicologicamente”, lembra, emocionada. 

 

Segundo Marcelle, quando se fala sobre a violência contra a mulher e suas várias vertentes não se pode deixar de trazer à tona um ponto fundamental e primordial: a educação. “Não existe outro espaço que vá desconstruir toda e qualquer possibilidade de violência. Através da educação criamos seres pensantes, e estamos precisando demais criá-los. Quando falamos que a violência é um construto a partir daquilo que a gente aprende nas nossas casas, na escola, no nosso círculo de amizade…desde de crianças, lidamos com uma sociedade que desde sempre vai colocando a mulher em um sub lugar de que ‘nasceu para servir’. Essa é a lógica do patriarcado que vai alimentando o machismo e esse processo de construção de violência”, destaca. Para ela, é preciso falar de uma igualdade de direitos ao ensinar, desde cedo, que o menino precisa, sim, brincar de boneca, por exemplo, ou de casinha, assim, as chances de se tornarem ótimos pais, respeitar a mulher e limpar a casa, por exemplo, seriam maiores. “Eles dariam valor a esse processo…e não existiria a frase: ‘vou te ajudar’. Não é sobre ajuda, é sobre partilhar uma vida já que estamos juntos. A educação na escola deveria trazer isso, mas não temos isso, infelizmente, porque temos uma educação que primeiro é feita para emburrecer a nossa sociedade. Se tivéssemos esses pequenos passos no processo de educação teríamos jovens que respeitariam o corpo da mulher porque ‘não é não’”, afirma com firmeza. 

 

A roda de conversa foi uma oportunidade inesquecível para ouvir relatos marcantes e profundos que dão a real dimensão deste grave problema social vivido no Brasil e no mundo e que ainda pode servir como ato de coragem para que outras mulheres que vivam os mesmos abusos busquem ajuda. Afinal, elas não estão sozinhas. Denuncie, ligue 180.