No Teatro do CCJF, espetáculo Silêncio em Casa, apresentado por detentas do sistema penitenciário do RJ, protesta sobre o triste retrato da violência doméstica contra mulheres
“Aqui a arte rompe limites, ultrapassa muros e revela que, mesmo em espaços com restrição, a criatividade floresce e humaniza….Que esse silêncio fale ao coração de cada um.” Com essa narração, trecho de introdução da peça Silêncio em Casa, encenada pelo Grupo "Atrás das Grades", o público presente no Teatro do Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) no dia 16 de janeiro, pôde sentir a profundidade do tema protagonista do espetáculo: a violência doméstica contra a mulher. O crime, geralmente praticado pelo companheiro ou parente homem, acomete milhares de vítimas que muitas vezes não conseguem pedir ajuda, seja por medo ou por dependência – emocional ou financeira. No espetáculo, as internas do regime semi-aberto do Instituto Penal Oscar Stevenson, do Rio de Janeiro, que já passaram pela triste situação de serem violentadas ou ter familiares que viveram casos semelhantes, se transformaram em atrizes amadoras e mostraram no palco “um retrato sensível das relações humanas onde falta conversa e sobra o silêncio”.
Fruto de uma articulação entre a Justiça Federal da 2ª Região (TRF2) e a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (SEAP), a iniciativa nasceu após uma visita à instituição penal, encabeçada pela juíza da 9ª Vara Federal Criminal, Dra. Débora Valle de Brito. Com apoio do CCJF, Silêncio em Casa é uma denúncia contra um problema social, agravado pelo machismo estrutural, que se arrasta por décadas e que precisa ser evidenciado. A peça conta a história de Mariana, dona de casa, esposa e mãe de família, que diariamente era desrespeitada e humilhada pelo marido, Carlos. Mesmo com apoio da filha e da sogra, a violência era contínua. Ao usar o pretexto de que era ele o responsável por sustentar financeiramente todos da família, Carlos diminuía e mantinha a mulher em uma situação de grande vulnerabilidade, deixando-a quase obrigada a não reagir.
A ideia vem ao encontro do que a narradora pontua, em uma de suas falas: “A violência nunca começa no tapa, começa na palavra dura, no medo de responder, no costume de abaixar a cabeça, e quando se percebe, o silêncio…ele já virou prisão.” Um dia, Mariana toma coragem e procura ajuda. “Eu vi e me calei tempo demais, esse ciclo termina aqui”, diz a personagem, em uma das cenas. Na sequência, o espetáculo ressalta que “o silêncio mata, mas a palavra salva”, instruindo as vítimas a não se calarem, a denunciar. “Não tenha medo, quantas marianas existem em cada casa? Não importa sua etnia, sua classe social, sua posição financeira. Em cada casa ainda pode existir uma Mariana. Então, não fique calada, ligue 180.”
Logo após o término da peça, as detentas, aplaudidas de pé, agradeceram a todos que estiveram envolvidos na produção do espetáculo pela paciência, carinho e dedicação. “Esse trabalho carrega o amor, o tempo e o coração de vocês, nossa eterna gratidão. Para nós que não somos atrizes é um desafio enorme, enfrentamos o medo, a timidez, a insegurança, mas também descobrimos força, coragem e voz…Choramos, rimos, e acima de tudo, aprendemos muito, crescemos como pessoas, mulheres, seres humanos. Essa experiência nos mostrou que mesmo em meio a dificuldade é possível se reinventar e acreditar em novos caminhos. Obrigada a todos que nos ouviram de corações abertos e acreditaram que a arte é uma forma de resistência, esperança e transformação”, agradeceu Maria*, interna que representou o personagem Carlos.
Joana*, a narradora de Silêncio em Casa, declarou que viu seus pais passarem por violência doméstica; ela também viveu agressões psicológica, física, verbal e moral durante 20 anos. “Agradeço a Deus porque dentro do cárcere compreendi que tenho voz e quando eu falo não somente a minha vida é poupada, mas a de dezenas de mulheres, pois dentro de tantas casas, existe sempre uma Mariana”, ressaltou.
Fernanda Silva e Souza, coordenadora da equipe de Educação do presídio feminino Oscar Stevenson, agradeceu aos presentes que “ouviram e sentiram” a apresentação. “Isso por si só já é um gesto de empatia, respeito e compromisso com a causa que não pode ser ignorada; o enfrentamento da violência contra a mulher…Cada uma delas trouxe para palco suas verdades, suas dores, suas forças e suas tentativas de recomeço. Tivemos apenas 10 dias de ensaio, pouco tempo no calendário mas um tempo imenso de entrega. Elas se dedicaram como quem entende a importância do que está sendo dito, falharam, erraram, recomeçaram e acreditaram”, pontuou, ao completar que a equipe acredita profundamente que educação, arte e cultura dentro do cárcere salvam vidas. “Esse projeto devolve a voz de quem foi silenciada, devolve identidade a quem foi reduzida a um número, fortalece essas mulheres, alcança suas famílias que voltam a sonhar junto com elas e impacta a sociedade que recebe essas mulheres mais conscientes, mais preparadas, mais humanas. Não é favor, é investimento e transformação”, concluiu emocionada.
*nomes fictícios para preservar a identidade das internas do Instituto Penal Oscar Stevenson.