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Por dentro do CCJF. Entrevista com Thays Acaiabe

Publicado em:
10/12/2025
A foto mostra uma mulher em ambiente interno, olhando para a câmera com um leve sorriso. Ela usa óculos e tem cabelos cacheados, presos de forma volumosa. O fundo é neutro, com parte de uma estante ou móvel desfocado ao lado.

A série Por dentro do CCJF desta edição convida o bate-papo virtual Thays Acaiabe, servidora do Setor de Artes Cênicas e AudioVisual do Centro Cultural Justiça Federal (CCJF). Ela conta sobre escolhas na carreira, funções que exerce no cargo e ainda lembra de uma das experiências mais marcantes que viveu no CCJF quando acompanhou o Transcineclube, projeto importante para a inclusão de pessoas trans no audiovisual, e conta um pouco sobre a idealização e objetivo da Mostra Cultural Consciência Negra. Confira a íntegra da entrevista, logo abaixo:

VITRAL CULTURALO que te fez escolher a profissão, e além disso, ingressar na carreira pública??

Thays Acaiabe: Tive várias profissões ao longo da minha trajetória. Sou de São Paulo, formada em Direito e em História; já trabalhei como professora, advogada e hoje sou Analista Judiciária. Grande parte da minha vida profissional foi no campo jurídico, mas a escrita sempre foi minha verdadeira paixão.

Sou filha de ator e cresci muito próxima da arte. Desde jovem escrevia textos para o meu pai, que sempre lamentou a falta de papéis e de autores negros contando nossas próprias histórias. Essa consciência me atravessou, mesmo enquanto eu buscava estabilidade na advocacia e no serviço público, até entender que a arte também é uma forma de lutar por justiça.

Apaixonada por narrativa, participei do Laboratório de Narrativas Negras da FLUP/Globo, onde fui selecionada — um marco que me abriu as portas do audiovisual. Desde então, sigo construindo meu caminho: fui roteirista e diretora do documentário Cartas pela Paz, finalista do É Tudo Verdade e da Mostra SESC de Cinema 2025, e continuo desenvolvendo projetos.

Acredito profundamente no poder transformador da cultura.

VITRAL: Há quanto tempo você trabalha no CCJF e quais suas principais funções? 

Thays Acaiabe: Cheguei ao CCJF em 2024 e, desde então, trabalho ao lado da Flávia Miranda, no Setor de Artes Cênicas e AudioVisual. Sou responsável, junto com a chefe de setor, pela análise e seleção de projetos nessas áreas, sempre buscando obras que dialoguem com nosso compromisso institucional com a cultura, a diversidade e o acesso democrático às artes. Também acompanho produções, mediações, debates e mostras.

Outra parte central do meu trabalho é organizar as produções e adequá-las às diretrizes e normas do Centro Cultural.

VITRAL: Conte-nos alguma curiosidade ou caso que considere memorável, seja profissional ou pessoal… 

Thays Acaiabe: Uma das experiências mais marcantes que vivi no CCJF foi acompanhar o Transcineclube, um projeto essencial para a inclusão de pessoas trans no audiovisual. Durante seis meses, o cineclube ocupou o Centro Cultural com filmes, performances e debates conduzidos por artistas trans. Ver uma instituição pública, historicamente pouco acessível a esses corpos, tornar-se um espaço seguro e vibrante foi profundamente emocionante.

Outra memória especial foi acompanhar de perto grandes artistas e produções que passaram pelo CCJF, como Sala Branca, A Descoberta das Américas e Abdias Nascimento.  

VITRAL: Nos conte um pouco sobre o processo de idealização da Mostra Cultural Consciência Negra, que chegou na 2ª edição este ano, no mês de novembro e foi um sucesso.

Thays Acaiabe: Cheguei ao CCJF em agosto de 2024, e a Mostra Cultural Consciência Negra nasceu de uma ideia da minha chefe, Flávia Miranda, uma grande aliada na luta pela equidade racial. Neste 2º ano da Mostra, tivemos o apoio fundamental dos nossos estagiários, Lucas de Melo e Emanuelle Mafra Castro. Ela surgiu da necessidade urgente de dar visibilidade a artistas, produtores e produtoras negras do Rio de Janeiro e de aproximar o CCJF de vozes que, historicamente, quase não ocupavam esse espaço.

Sendo uma das poucas mulheres negras concursadas do órgão, sei que minha presença aqui também carrega a responsabilidade de abrir caminhos. A Mostra busca ser um ambiente de afirmação, celebração e reflexão, reunindo cinema, debates, artes cênicas, literatura, música e artes visuais. Mais do que programação, é um gesto político que homenageia a resistência do povo negro e reafirma nosso direito à memória e ao protagonismo dentro de uma instituição pública.

Em 2025, ampliamos ainda mais essa potência com a entrada oficial dos setores de Música, Literatura e Exposições. Sou muito grata ao apoio das minhas colegas e da Diretora de Cultura, Maria do Carmo Oliveira.