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Mostra Cultural Consciência Negra: um mergulho nas múltiplas dimensões da experiência negra no Brasil

Publicado em:
10/12/2025
A imagem mostra uma mesa de conversa sobre produção cultural, realizada em um auditório. Quatro participantes estão sentados em cadeiras diante do público, sob uma luz quente. Ao fundo, um telão exibe o título “Produção Cultural” e informações do evento. Da esquerda para a direita, vê-se uma mulher de roupa clara, um homem com camisa estampada, uma mulher de vestido bege e um homem com camiseta vermelha que fala ao microfone. A atmosfera é acolhedora e voltada ao debate artístico.

Durante todo o mês de novembro, o Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) transformou-se em palco de escuta, reconhecimento e celebração da ancestralidade afro-brasileira. Com exposições, debates, literatura, oficinas, shows, cinema e teatro, a 2ª edição da Mostra Cultural Consciência Negra se estabeleceu como território de memória e de futuro, em que a herança africana se expressa em múltiplas linguagens. Ao ocupar o CCJF, promovendo reflexões sobre arte, judiciário e cultura, a mostra afirmou a potência da população negra e instaurou novas arenas de debate, em que resistência, memória e futuro se entrelaçam em movimento. A iniciativa, que deve se repetir em 2026, vai além de uma programação completa e temática, ressignifica o Centro Cultural não apenas como um símbolo do poder institucional, mas também como espaço do povo: aberto à diversidade, à crítica e à escuta.

A ideia, vinda do Setor de Audiovisual e Artes Cênicas do CCJF, não se limitou a apenas uma data — o Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro —, mas de um processo contínuo de afirmação e transformação social. É um verdadeiro chamado para refletir sobre desigualdades históricas e, ao mesmo tempo, celebrar as conquistas e resistências que moldam a identidade negra no Brasil. “A cultura é uma força viva, que atravessa o tempo e transforma a sociedade, trazendo os espaços culturais como agentes dessa mudança. Ao reunir tantas expressões artísticas, o CCJF celebrou não apenas a herança do passado, mas também a potência de um futuro que se constrói incessantemente na escuta e na ação coletiva”, salienta Maria de Oliveira, diretora da Divisão de Cultura do CCJF.

Para Thays Acaiabe, servidora do Setor de Artes Cênicas e Audiovisual, a questão racial não é uma pauta só das pessoas negras, é uma pauta de toda a sociedade. “A mostra foi um convite para que todos viessem participar desse movimento. Queremos, em qualquer data, que o CCJF seja um espaço realmente para todos, aberto à diversidade e à troca em que cada um que passar por aqui possa se reconhecer na nossa história e sonhar junto com a gente novos futuros”, frisa Thays.

A abertura da Mostra Cultural Consciência Negra 2025 aconteceu dia 1º de novembro, com a Roda de Conversa Produção cultural: Fazeres Artísticos Negros como Ferramenta de Representatividade. No Cinema do CCJF,  artistas, produtores e público puderam debater, de forma consistente, a pauta negra no campo da Música, Literatura, Audiovisual, Teatro e Artes Plásticas. Entre os temas principais, os desafios, conquistas e caminhos possíveis para a construção de uma cena cultural mais plural, representativa e democrática. “A mostra foi aberta com emoção e múltiplas vozes na Roda de Conversa em que os artistas e produtores que estariam pelos corredores do CCJF durante o mês de novembro tivessem a oportunidade de falar um pouco sobre si e ouvir sobre os demais”, explica a mediadora do encontro Patrícia Santos, servidora da Justiça Federal e membro do Comitê Igualdade Racial. 

Segundo ela, no primeiro painel os participantes contaram um pouco sobre os desafios das trajetórias individuais e a luta por diversidade e inclusão. Já no segundo, o assunto inicial foi a importância do audiovisual na reescrita do imaginário sobre a população negra.  Em ambos os painéis, os integrantes estiveram à vontade para partilhar relatos de família e infância, de início de carreira, de personagens inspiradores, anseios e ensinamentos, além de deixarem valorosas contribuições com suas histórias de vida, de lutas e resistência. “Mediar esse encontro nem foi o desafio difícil que imaginei, pois a conversa fluiu tranquilamente, com total conexão, resultado que, ao meu ver, foi fruto da excelente curadoria do CCJF e, por que não dizer, da nossa ancestralidade preta, sempre atenta a nos guiar”, pontuou Patrícia. 

Alek Lean, pedagogo, produtor, roteirista e cineasta, integrou o último painel da Roda de Conversa. Ele resume a oportunidade de participar do evento como “um momento educativo e de reafirmação política e estética.” “Discutimos, entre outros assuntos de extrema relevância, que representatividade não se limita à presença de pessoas negras diante das câmeras; ela se consolida, principalmente, quando estamos também por trás delas, escrevendo, dirigindo, produzindo e decidindo os rumos das narrativas. Sem autoria negra, a imagem pode existir, mas a voz segue mediada”, ressalta Lean, idealizador do Black Queer Festival, que aconteceu no CCJF no dia 29 de novembro.

Sobre a importância de espaços culturais como o CCJF acolherem debates urgentes e darem visibilidade a artistas independentes, movimentos e projetos historicamente marginalizados das estruturas culturais formais, ele diz ser determinante para transformar o cenário. “Espaços como esse são fundamentais para que iniciativas como o Black Queer Festival não apenas existam, mas floresçam, ocupem lugares de direito e ampliem suas redes. Quando idealizei o Black Queer Festival, foi justamente com o propósito de romper essa lógica de nicho, conquistando espaços de exibição dignos para artistas negros, indígenas e LGBTs que estão na base da pirâmide das oportunidades e raramente ultrapassam pequenas mostras específicas”, disse. 

Com isso, fica a certeza de que a Mostra Cultural Consciência Negra cumpriu, com louvor, seu papel social e transformador. Ela acabou há poucos dias, deixando um rastro permanente de conhecimento, memória e ancestralidade, mas já deixando um gosto de ‘quero mais’. A parte boa é que 2026 está logo ali.