
Mostra Cultural Consciência Negra: um mergulho nas múltiplas dimensões da experiência negra no Brasil
Durante todo o mês de novembro, o Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) transformou-se em palco de escuta, reconhecimento e celebração da ancestralidade afro-brasileira. Com exposições, debates, literatura, oficinas, shows, cinema e teatro, a 2ª edição da Mostra Cultural Consciência Negra se estabeleceu como território de memória e de futuro, em que a herança africana se expressa em múltiplas linguagens. Ao ocupar o CCJF, promovendo reflexões sobre arte, judiciário e cultura, a mostra afirmou a potência da população negra e instaurou novas arenas de debate, em que resistência, memória e futuro se entrelaçam em movimento. A iniciativa, que deve se repetir em 2026, vai além de uma programação completa e temática, ressignifica o Centro Cultural não apenas como um símbolo do poder institucional, mas também como espaço do povo: aberto à diversidade, à crítica e à escuta.
A ideia, vinda do Setor de Audiovisual e Artes Cênicas do CCJF, não se limitou a apenas uma data — o Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro —, mas de um processo contínuo de afirmação e transformação social. É um verdadeiro chamado para refletir sobre desigualdades históricas e, ao mesmo tempo, celebrar as conquistas e resistências que moldam a identidade negra no Brasil. “A cultura é uma força viva, que atravessa o tempo e transforma a sociedade, trazendo os espaços culturais como agentes dessa mudança. Ao reunir tantas expressões artísticas, o CCJF celebrou não apenas a herança do passado, mas também a potência de um futuro que se constrói incessantemente na escuta e na ação coletiva”, salienta Maria de Oliveira, diretora da Divisão de Cultura do CCJF.
Para Thays Acaiabe, servidora do Setor de Artes Cênicas e Audiovisual, a questão racial não é uma pauta só das pessoas negras, é uma pauta de toda a sociedade. “A mostra foi um convite para que todos viessem participar desse movimento. Queremos, em qualquer data, que o CCJF seja um espaço realmente para todos, aberto à diversidade e à troca em que cada um que passar por aqui possa se reconhecer na nossa história e sonhar junto com a gente novos futuros”, frisa Thays.
A abertura da Mostra Cultural Consciência Negra 2025 aconteceu dia 1º de novembro, com a Roda de Conversa Produção cultural: Fazeres Artísticos Negros como Ferramenta de Representatividade. No Cinema do CCJF, artistas, produtores e público puderam debater, de forma consistente, a pauta negra no campo da Música, Literatura, Audiovisual, Teatro e Artes Plásticas. Entre os temas principais, os desafios, conquistas e caminhos possíveis para a construção de uma cena cultural mais plural, representativa e democrática. “A mostra foi aberta com emoção e múltiplas vozes na Roda de Conversa em que os artistas e produtores que estariam pelos corredores do CCJF durante o mês de novembro tivessem a oportunidade de falar um pouco sobre si e ouvir sobre os demais”, explica a mediadora do encontro Patrícia Santos, servidora da Justiça Federal e membro do Comitê Igualdade Racial.
Segundo ela, no primeiro painel os participantes contaram um pouco sobre os desafios das trajetórias individuais e a luta por diversidade e inclusão. Já no segundo, o assunto inicial foi a importância do audiovisual na reescrita do imaginário sobre a população negra. Em ambos os painéis, os integrantes estiveram à vontade para partilhar relatos de família e infância, de início de carreira, de personagens inspiradores, anseios e ensinamentos, além de deixarem valorosas contribuições com suas histórias de vida, de lutas e resistência. “Mediar esse encontro nem foi o desafio difícil que imaginei, pois a conversa fluiu tranquilamente, com total conexão, resultado que, ao meu ver, foi fruto da excelente curadoria do CCJF e, por que não dizer, da nossa ancestralidade preta, sempre atenta a nos guiar”, pontuou Patrícia.
Alek Lean, pedagogo, produtor, roteirista e cineasta, integrou o último painel da Roda de Conversa. Ele resume a oportunidade de participar do evento como “um momento educativo e de reafirmação política e estética.” “Discutimos, entre outros assuntos de extrema relevância, que representatividade não se limita à presença de pessoas negras diante das câmeras; ela se consolida, principalmente, quando estamos também por trás delas, escrevendo, dirigindo, produzindo e decidindo os rumos das narrativas. Sem autoria negra, a imagem pode existir, mas a voz segue mediada”, ressalta Lean, idealizador do Black Queer Festival, que aconteceu no CCJF no dia 29 de novembro.
Sobre a importância de espaços culturais como o CCJF acolherem debates urgentes e darem visibilidade a artistas independentes, movimentos e projetos historicamente marginalizados das estruturas culturais formais, ele diz ser determinante para transformar o cenário. “Espaços como esse são fundamentais para que iniciativas como o Black Queer Festival não apenas existam, mas floresçam, ocupem lugares de direito e ampliem suas redes. Quando idealizei o Black Queer Festival, foi justamente com o propósito de romper essa lógica de nicho, conquistando espaços de exibição dignos para artistas negros, indígenas e LGBTs que estão na base da pirâmide das oportunidades e raramente ultrapassam pequenas mostras específicas”, disse.
Com isso, fica a certeza de que a Mostra Cultural Consciência Negra cumpriu, com louvor, seu papel social e transformador. Ela acabou há poucos dias, deixando um rastro permanente de conhecimento, memória e ancestralidade, mas já deixando um gosto de ‘quero mais’. A parte boa é que 2026 está logo ali.