
Em “Café, Almoço e Jantar”, o tempo atravessa histórias, escolhas e gerações
Um pequeno restaurante permanece no mesmo lugar. Ao redor dele, porém, tudo muda. Pessoas chegam, partem, envelhecem e retornam. Do lado de fora, o Brasil também se transforma. É nesse encontro entre o tempo íntimo de uma família e o tempo histórico de um país que se constrói Café, Almoço e Jantar, espetáculo apresentado em setembro no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF).
Escrita por Ivan Fernandes e dirigida por ele e Maíra Kestenberg, a peça acompanha três momentos da vida de uma família, em 1987, 1994 e 2018. As três épocas correspondem também aos três atos que dão nome ao espetáculo: café, almoço e jantar. O ponto de encontro é o restaurante de Dona Filó, onde relações familiares, ausências, afetos e escolhas vão deixando suas marcas à medida que os anos avançam.
Entre um período e outro, a passagem do tempo ganha uma linguagem própria no palco. O restaurante se esvazia e acontecimentos políticos e sociais conduzem o público através das décadas. A redemocratização, mudanças econômicas e diferentes momentos da vida política brasileira surgem não como uma história paralela, mas como parte do mundo em que aqueles personagens vivem.
Segundo Ivan Fernandes, essa relação está na origem da dramaturgia. “Surgiu da necessidade de falar do Brasil de hoje usando o Brasil de ontem, e toda a trajetória que o país percorreu nas últimas décadas”, explica. O autor conta que não queria tratar o tema de forma panfletária, por isso, a partir da trajetória de uma família, encontrou uma maneira de mostrar pessoas que testemunham diferentes períodos e como elas são afetadas e transformadas por eles.
A escolha encontra eco na experiência do público. Patrícia, designer, destacou justamente a forma como a montagem aproxima os acontecimentos históricos das questões familiares e sensíveis dos personagens. Para ela, esse entrelaçamento ajuda a perceber não apenas os fatos que posteriormente reconhecemos como História, mas também o que as pessoas viviam e sentiam enquanto esses acontecimentos repercutiam em seu cotidiano.
O personagem que não sai de cena — Ao longo de Café, Almoço e Jantar, diferentes personagens parecem ocupar o centro da narrativa. Dona Filó mantém o restaurante e a família; Américo, seu funcionário e amigo, torna-se também referência afetiva para as gerações que passam por ali; Paolo e Hermes atravessam experiências de partida, ausência, pertencimento e reencontro. Para o autor, no entanto, há um protagonista que está acima de todos eles. “O principal personagem da peça é o tempo. É o tempo que atravessa o país e a família, e na sua marcha, todas as coisas mudam, passam”, pontua Ivan.
É também a passagem do tempo que modifica o significado das escolhas. Personagens que, em diferentes momentos, procuram liberdade, autenticidade ou seu próprio lugar no mundo precisam lidar com as responsabilidades e consequências que acompanham essas decisões. “Escolhas, responsabilidades, pertencimento e amadurecimento são questões que só se respondem para os personagens através da passagem do tempo”, observa o autor.
Essa reflexão ganha força especialmente nas relações entre as gerações. Partir e permanecer não aparecem necessariamente como decisões opostas entre certo e errado. Enquanto para um personagem, partir significa encontrar a possibilidade de construir a própria vida; para outro, é somente depois de muitas partidas que surge a percepção do lugar ao qual pertencem.
Um lugar habitado pela memória — Enquanto as décadas avançam, o restaurante permanece. Mais do que cenário para a ação, o espaço acumula lembranças daqueles que passaram por ele. No último período retratado pela peça, personagens que já morreram voltam a aparecer em cena. Ivan esclarece que não se trata de fantasmas, mas de memórias. “Todo lugar, e toda família, é cheio de referências das pessoas que já o habitaram”, explica.
A permanência do restaurante também está ligada à própria origem do espetáculo. Ivan conta que Café, Almoço e Jantar começou como um desafio de escrita: acostumado a criar peças que percorrem diferentes cenas e ambientes, queria experimentar uma dramaturgia que acontecesse inteiramente em um mesmo lugar. O espaço ficou. O tempo, não.
Embora carregue elementos pessoais, Ivan ressalta que a obra não é autobiográfica. “Todos aqueles personagens existiram de uma forma ou de outra na minha criação”, conta. Para ele, uma das experiências mais marcantes proporcionadas pelo espetáculo tem sido perceber como o público reconhece aqueles personagens em suas próprias histórias. “A família da peça acaba se tornando um símbolo da história de muitas famílias brasileiras.”
Talvez esteja justamente aí uma das forças de Café, Almoço e Jantar. Enquanto grandes acontecimentos atravessam o país e um pequeno restaurante atravessa décadas, a História, escrita com letra maiúscula, encontra as histórias particulares que acontecem todos os dias: à mesa, dentro de casa, nas partidas e nos retornos, nas escolhas que fazemos e naquilo que o tempo faz com elas.