Pular para o conteúdo principal
NewsletterLogomarca VITRAL CULTURAL

Roda de conversa sobre literatura na infância aborda luto e temas sensíveis no CCJF

Publicado em:
10/09/2026
Público participa de uma roda de conversa em uma sala do CCJF. As pessoas estão sentadas em cadeiras voltadas para duas participantes posicionadas à frente do espaço, junto a uma mesa e uma tela de projeção. Ao fundo, portas altas de madeira e estantes com livros compõem o ambiente.

Falar sobre morte e luto com crianças ainda pode ser um desafio para pais, educadores e mediadores. Foi a partir dessa questão que o Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) promoveu na Sala de Leitura, no sábado, dia 1º de agosto, a roda de conversa Literatura para infância: o luto vem nos visitar um dia. O evento reuniu as escritoras Melina Galete e Regina de Fátima de Jesus, além da mediadora Rosane Nunes, para uma conversa sobre literatura, infância e finitude. A atividade abordou o luto como parte da experiência humana e destacou a literatura como um caminho para criar espaços de escuta e reflexão sobre as diferentes formas de vivenciar perdas na infância. 

Para a mediadora, falar sobre o luto desde cedo é uma forma de reconhecer que as crianças também vivenciam perdas e possuem plena capacidade de elaborar sentimentos relacionados a elas. Ela pontuou que os adultos frequentemente evitam o assunto na tentativa de proteger os pequenos, ignorando que a ausência é sentida de qualquer forma.

Nesse contexto, as obras Onde está a poesia?, de Melina Galete, e Pé de Amanhã, de Regina de Fátima de Jesus, discutidas durante o encontro, podem funcionar como instrumentos de conversa e mediação para iniciar diálogos delicados sem impor respostas prontas. “Esses livros criam possibilidades para que a criança expresse sentimentos, faça perguntas e construa suas próprias compreensões sobre a ausência e a saudade. E nada como conversar desde cedo sobre o luto, de forma delicada e adequada ao universo dos pequenos”, comentou Rosane Nunes.

A abordagem literária também permite que temas complexos sejam apresentados por meio da imaginação, de metáforas e de imagens poéticas. A mediadora ressaltou que esse recurso não significa diminuir ou esconder a dor, mas possibilitar que cada criança estabeleça sua própria relação com aquilo que está sendo contado, de acordo com sua experiência e contexto. “Ela [literatura] de forma alguma simplifica ou esconde a dor, mas a apresenta de forma simbólica, para que cada criança faça a sua própria leitura a partir da sua [própria] experiência. Ela abre espaços de reflexão, sem pretensão alguma de ensinar a forma correta de sentir algo ou enfrentar o luto, até porque tudo depende da subjetividade, da carga emocional e social em que se vive uma criança”.

Essa busca por um espaço seguro para falar sobre a finitude transbordou para a plateia. A receptividade do público transformou o encontro em um verdadeiro território de trocas humanas, onde os participantes se sentiram à vontade para compartilhar memórias e vivências difíceis ligadas às suas próprias ausências. A dinâmica do evento evidenciou que, quando se cria um ambiente de acolhimento mediado pela arte, histórias distintas se aproximam e encontram um ponto de contato.

A discussão reforçou, assim, que velar o assunto não impede que a dor aconteça. Ao contrário, quando conduzida com cuidado e ternura, a conversa sobre o luto permite que a criança nomeie o que sente e construa seus próprios caminhos de elaboração. Ao utilizar a literatura como aliada, a roda de conversa mostrou ser possível abordar temas complexos com transparência, ajudando adultos e crianças a transformar a saudade em memória e a cultivar novos horizontes.