regência
Jésus Figueiredo
R$40 (meia R$20)

Sinopse
Composta em 1826, a Missa de Santa Cecília é uma das últimas obras de Padre José Maurício Nunes Garcia, marco da música sacra brasileira. Dedicada à padroeira dos músicos, a obra celebra a arte como expressão espiritual e humana, revelando a profunda sensibilidade e o domínio técnico de um compositor negro que enfrentou as barreiras raciais de seu tempo para afirmar-se como um dos maiores músicos das Américas.
A Missa de Santa Cecília representa um salto estilístico para as composições orquestrais nacionais, com ela se dá início ao movimento romântico musical por compositores nacionais. Mais do que uma peça litúrgica, a Missa também é símbolo de resistência cultural e fé. Ao ser retomada em 2026, comemorando seus 200 anos de composição, a obra reafirma a potência da música negra na construção da identidade nacional e a urgência de reconhecer — sem filtros — a contribuição afro-brasileira à tradição brasileira de concerto.
Programa
Missa Santa Cecília (CPM 113)
Minibiografias
Jésus Figueiredo é mestre pela Haute École de Musique de Genebra, na Suíça, especializou-se em música antiga, regência, órgão e cravo. No Theatro Municipal do Rio de Janeiro, atuou como maestro titular do coro por diversos anos e atualmente, como maestro colaborador, tem trabalhado na preparação de óperas, na direção de concertos e na regência de ballets.
É também bacharel em Regência e Órgão de Tubos pela Escola de Música da UFRJ e mestre em Musicologia, com pesquisa voltada para afinação baseada na acústica musical. Como preparador coral, recebeu prêmios da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte): em 1998, pela gravação da ópera O Colombo, de Carlos Gomes, e, em 2016, pelas montagens de Don Quixote, de Massenet, e Lo Schiavo, de Carlos Gomes, apresentadas no Municipal do Rio. Desde 2022, tem dirigido na Suíça o Ensemble Gravidades, regendo obras de J.S. Bach, Antonio Vivaldi, Luigi Boccherini e Christoph Graupner, além de divulgar o repertório do compositor brasileiro José Maurício Nunes Garcia.
Desde 2013, à frente da direção musical da Associação de Canto Coral (ACC), tem incentivado a criação de novas formações corais e a ampliação do repertório, abrangendo desde a Música Colonial Brasileira até a Música Contemporânea, incluindo produções operísticas. Atualmente, é regente do Coro Sinfônico e coordenador musical do Coro Tu Voz Mi Voz, ambos da ACC.
Padre José Mauricio Nunes Garcia é filho de uma família negra livre no Rio de Janeiro colonial, José Maurício Nunes Garcia (1767–1830) tornou-se um dos maiores compositores das Américas. Ordenado padre e mestre da Capela Real, superou o racismo e a exclusão social de seu tempo para alcançar prestígio entre as cortes europeias e a elite musical luso-brasileira.
Sua carreira pode ser dividida em três partes: a 1ª antes de 1808, quando José Mauricio era Mestre da Capela da Sé do Rio de Janeiro. A 2ª fase começa em 1808, com a chegada da família real: após audiência com o então Principe Regente Dom João VI, José Mauricio se torna Mestre da Capela Real, o mais alto cargo para um músico da época. Nesta 2ª fase, José Mauricio escreve cerca de 70 obras por ano, assumindo sozinho todas as obrigações composicionais para a corte real. Além da imensa produtividade, essa fase da carreira de José Mauricio é marcada pelo maior acesso as tecnologias musicais vindas da Europa, sejam: partituras musicais que vão influenciar a escrita do Padre; mais instrumentistas vindos da Europa, possibilitando outras formações orquestrais e de maior complexidade e, juntos dos instrumentistas: instrumentos musicais de maior qualidade e complexidade.
A 3ª fase se inicia com a chegada com o Marcos Portugal, antigo mestre de capela real, que ficou em Portugal até 1811. Marcos vai dividir com José Mauricio algumas de suas obrigações, aliviando o ritmo frenético de produção musical do Mestre da Capela Real. Além disso, nessa fase José Mauricio vai sofrer outras influencias musicais, como a vinda ao Brasil de Sigismund Neukomm, que foi aluno de Haydn na Europa. Essa 3ª fase da carreira de José Mauricio dura até cerca de 1822, com o Padre compondo peças cada vez mais elaboradas. De 1822 para 1823, José Mauricio quase não compõe mais nada. E será convencido a compor a Missa de Santa Cecília em 1826, sob encomenda da Irmandade de Santa Cecília.
Sua obra, marcada pela sensibilidade clássica e pelo profundo senso espiritual, traduz o encontro entre o sagrado e o humano, entre a fé e a liberdade. Redescobrir José Maurício é também reescrever a história da música brasileira sob uma perspectiva antirracista — reconhecendo a genialidade de um artista negro cuja voz moldou a identidade sonora do Brasil.
Associação de Canto Coral foi fundada em 1941, a Associação de Canto Coral (ACC) tem exercido expressiva representação no cenário cultural musical do país, proporcionando ao público o convívio com o grande repertório coral, desde o antigo ao contemporâneo passando pela música popular e até mesmo a ópera. A ACC vem se destacando também pela apresentação em primeira audição no país de muitas obras corais, em particular aquelas de compositores brasileiros. Teve como sua primeira diretora artística a regente Cleofe Person de Mattos, que se dedicou principalmente à pesquisa e execução do repertório do padre compositor José Maurício Nunes Garcia.
Atualmente a direção artística é de Jésus Figueiredo, que procura expandir as atividades da associação, incentivando a criação de vários grupos corais com diferentes perfis musicais, implementando um repertório mais amplo e variado. Hoje a ACC, conta com 10 coros formados por cerca de 180 associados e colaboradores que mantém suas atividades artísticas tanto em sua sede no centro do Rio, assim como suas apresentações nos mais importantes palcos da cidade e do nosso Estado.
Cleofe Person de Mattos é maestrina, pesquisadora e pioneira, Cleofe Person de Mattos dedicou sua vida à música coral brasileira e à obra de José Maurício. Em uma época em que a presença feminina na regência era exceção, Cleofe impôs-se pela excelência e pelo rigor intelectual, abrindo caminhos para gerações de mulheres na música.
Sua pesquisa e edição crítica das obras de José Maurício foram fundamentais para resgatar a memória de um compositor negro e é a razão de muitas de suas obras terem sobrevivido até os tempos de hoje. Cleofe, mulher em um ambiente masculino, escolheu dar voz a um homem negro invisibilizado — um gesto de profunda convergência simbólica entre luta racial e emancipação feminina.