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Por dentro do CCJF. Entrevista com Rochelle Silveira

Publicado em:
10/07/2026
Retrato da estagiária Rochelle Silveira. Com cabelos curtos e cacheados, ela veste camiseta amarela e olha para a câmera com expressão serena.

A Vitral Cultural deste mês dá continuidade na série Por dentro do CCJF. Nesta edição, a entrevistada é Rochelle Silveira, estagiária do Setor Educativo. Ela conta sobre as atividades que realiza no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) e ainda lembra de um caso marcante em sua vida que prova como a arte pode despertar sentimentos dúbios e intensos. Confira a entrevista completa a seguir:

VITRAL CULTURAL: O que te fez escolher o curso de História da Arte? Quando começou a estagiar no Centro Cultural Justiça Federal e como é trabalhar em um espaço que respira cultura e arte? 

ROCHELLE SILVEIRA: Há vários motivos que me levaram a escolher o curso de História da Arte, e um deles foi o fato de eu já ter uma trajetória no teatro. Tive uma rápida experiência com a dança e depois migrei para trabalhar nos bastidores do audiovisual. Foi aí que comecei a sentir falta de um contato maior com as artes visuais, de que eu sempre gostei, porém de forma mais distante. Gosto muito da sensação de sentar na poltrona de um teatro para assistir a um espetáculo e ouvir os três sinais tocarem, ou ver, na sala de cinema, as luzes se apagando porque o filme já vai começar e, por fim, entrar em uma sala de exposição e ouvir um silêncio acolhedor junto às imagens. 

Foi quando me dei conta disso que percebi que queria me aprofundar na História da Arte. Comecei a trabalhar no CCJF em setembro de 2025. Acredito na cultura como um meio de formação tão importante quanto uma universidade. A gente está sempre procurando se autoconhecer de alguma forma ou “evoluir”, e acredito que estar em contato com a arte, se deixar ser afetado por ela, é um lugar onde essa busca, de certa maneira, se torna possível. Então, poder trabalhar em um espaço onde a gente tem não só o acesso mas também a responsabilidade de fazer isso acontecer, é muito gratificante. 

VITRAL: Quais suas principais funções no CCJF? Qual é a atividade que você mais gosta de realizar? 

ROCHELLE: Trabalho no Setor Educativo e uma das minhas principais funções é realizar a visita orientada, atividade na qual temos a oportunidade de apresentar ao visitante o Centro Cultural, de contar a história de como o prédio surgiu e o contexto desse espaço que abrigou o Supremo Tribunal Federal (STF) de 1909 a 1960. Ainda mostramos todos os ambientes que o público pode usufruir, como teatro, biblioteca, cinema, as galerias e o meliponário. Gosto muito de fazer as visitas mediadas, que são as visitas realizadas nas exposições de arte que estão abertas aos visitantes. É uma oportunidade interessante de conhecer melhor os artistas, seus trabalhos e levar isso adiante. Além disso, há um projeto mais recente chamado “Entre Leis e Lendas” em que fazemos uma visita criada a partir de casos sobrenaturais presenciados no prédio por trabalhadores do centro cultural. É uma visita mais lúdica e muito divertida de fazer.  

VITRAL: Conte-nos alguma curiosidade ou caso que considere memorável, seja profissional ou pessoal… 

ROCHELLE: Eu tinha um amigo que trabalhava vendendo livros e foi uma das pessoas mais místicas que eu conheci. O nome dele era Victor Hugo, e ele parecia um bruxo. Quando a gente entrava na casa dele, às vezes mal encontrávamos lugar para sentar, porque era cheia de livros por todo canto. Certo dia, ele me mostrou um livro grande com imagens das obras de Francis Bacon, um pintor irlandês nascido no período Pós-Segunda Guerra Mundial. Nunca tinha visto nada parecido, eram pinturas de figuras retorcidas, coloridas, quase abstratas. Eu não sabia se sentia medo, se achava bonito ou as duas coisas ao mesmo tempo…era tudo muito estranho, mas que me deixou muito impressionada. 

Anos depois, tive a oportunidade de visitar uma exposição do Francis Bacon que acontecia no MASP. Foi então que descobri que a exposição foi pensada depois de lerem uma entrevista realizada por um crítico de arte, em que o pintor dizia que começou a pintar aqueles corpos distorcidos após ir a um açougue e ver aqueles pedaços de carne pendurados. Ele contou que aquelas imagens despertaram nele uma sensação muito ambígua, de beleza e horror, de vida e morte, e que aquilo deixava ele extremamente impressionado. Essa situação ficou marcada na minha mente por um tempo e posso dizer que me ajudou a me atrair pela arte.