
Festival Roberto Athayde: com a presença do autor, lenda viva do teatro brasileiro, leituras dramatizadas dialogam com a história do país e das artes cênicas
Em junho, as terças-feiras à tarde do Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) contaram com uma programação especial. Nos dias 3, 10, 17, 23, aconteceu o segundo módulo do Festival Roberto Athayde — o primeiro foi realizado entre novembro de 2025 e janeiro de 2026. O palco do CCJF foi ocupado por alunos de escolas de teatro do Rio de Janeiro que interpretaram leituras dramatizadas de cinco peças históricas de Roberto Athayde, uma lenda viva do teatro brasileiro. Presente em todas as apresentações, com direito a debate e ensinamentos ao final de cada uma delas, o autor ajudou a transformar a ocasião em um diálogo inédito entre ele, a História do país, o Teatro, e plateias híbridas — compostas por alunos, professores e público em geral.
A peça O Primeiro Brasileiro Bacharel de Cananéia - chanchada lírica, musical satírico em estilo rap sobre a figura do personagem um tanto misterioso: o Bacharel de Cananéia, estreou o festival no dia 3. A leitura dramatizada foi feita pelos alunos de Literatura Dramatizada da Escola de Teatro Martins Pena, com direção de Cláudia Marques e participação especial de Eric Max Baré. Já a segunda leitura, Auto do Cara de Cão, realizada, no dia 10, pelos alunos da Escola de Teatro Faetec Quintino cuja direção é de Jorge Leite, narrou como o Rio de Janeiro foi fundado por forças vindas do Brasil, lideradas por Estácio de Sá e pela Capitania de São Vicente para expulsar da Guanabara os invasores franceses e a conjuração indígena açulada por eles.
A terceira leitura dramatizada foi uma trilogia de peças sobre o advento da Constituição no Portugal/Brasil: a primeira apresentação, que aconteceu no dia 17, foi o espetáculo Carlota Rainha, que tipifica o absolutismo na figura da controversa esposa de D. João VI, interpretada pelos alunos da Escola de Teatro Martins Pena. A direção foi de Jacqueline Lobo; a segunda, realizada no dia 23, foi a leitura da peça D. Miguel Rei de Portugal, que conta a história do malfadado filho caçula de Carlota que usurpa o trono lusitano, abole a Constituição e se proclama rei absoluto. Uma leitura dramatizada com alunos da Cia. Os Ciclomáticos DNA, direção de Ribamar Ribeiro e Igor Mattos. E, ainda, fecharia a trilogia a interpretação de D. Pedro Duque de Bragança, em que D. Pedro, depois de abdicar do império brasileiro e do reino de Portugal invade Portugal e derrota o irmão, tornando-se por lá o herói da Liberdade que precisou ser adiada devido à greve rodoviária que acabou inviabilizando a abertura do Centro Cultural. Essa leitura dramatizada seria feita por alunos da Cia Villelarte, com direção de Felipe Villela.
Para Márcia Bello, diretora, atriz, produtora e organizadora do Festival Roberto Athayde, o CCJF abraçou o projeto lindamente, disponibilizando, inclusive, intérpretes em libras nesse módulo em parceria com os setores Educativo e Artes Cênicas e Audiovisual. “É muito importante esse movimento que está sendo subsidiado pelo Centro Cultural Justiça Federal. Tenho muito a agradecer a todos os funcionários do CCJF, são pessoas que estão sempre presentes, muito educados e prestativos. Nesses 7 meses de programação do festival, contando com o intervalo, tanta coisa bonita aconteceu, tanta atividade bacana foi acolhida por vocês…só quero continuar com essa parceria. Espero que essa parceria dure muito tempo”, comemorou.
Do lado do público, os elogios de quem pode assistir as leituras dramatizadas foram inúmeros. André Queiroz, professor de Cinema da UFF, descreveu o festival como “flores em vida”. “Ele reúne textos de Roberto Athayde, mas não apenas. São distintos os grupos e diretores invocados, encarregados, entramados nas leituras dramatizadas, mas não apenas. Atenção: Não seria pouco este feito. Seria ótimo. Mas o Festival não para aí: Roberto Athayde está presente. Ele assiste, sobe ao palco, conta destrincha, ensina! Fiquei olhando a cena como quem a decupa e testemunhei os olhares dos atores presenciando a voz do autor”, ressaltou. Para Afonso Celso Teixeira, Secretário Geral do Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro (Sinpro-Rio), “o festival dá prazer de escutar novamente um texto teatral bem lido e bem interpretado. “Importante e necessário", disse. Beth Passi de Moraes, cenógrafa e figurinista, corrobora com as ideias acima e complementa: “Foi uma oportunidade única de conhecer a fundo a obra do autor. As leituras dramatizadas eram seguidas de uma conversa com o próprio Athayde sobre suas inspirações e o contexto em torno das obras. Foi uma iniciativa rara e maravilhosa!”, destaca. Viva o teatro brasileiro!