
Confluência: encontro inspirador em que a moda ultrapassa o vestir
No dicionário, a palavra Confluência significa “ponto de encontro entre duas ou mais coisas”, “junção, reunião”; no sentido figurado, “acordo, concordância, similaridade”. Tudo isso (e mais um pouco) resume o que foi o evento Confluência: Uma Tarde de Moda, Design e Criatividade, realizado no último dia 18 de abril no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF). Durante o período da Rio Fashion Week, que aconteceu entre 14 a 18 de abril no Píer Mauá, região do Porto Maravilha, o CCJF recebeu um encontro que propôs olhar a moda para além da passarela. Liliam Reis, consultora de imagem à frente da Imagem Disruptiva, recebeu mulheres inspiradoras para um dia de atividades que incluiu palestra, visita orientada, roda de conversa e oficina de estilo, propondo discutir como a experiência do vestir e a auto imagem dialogam com identidade, cultura, ancestralidade e modos de vida. “A gente percebe que (na sociedade) existe a idade, o corpo certo, o lugar certo para usar determinadas coisas (moda). Nesse sentido, viemos com outro aspecto, tentar entender quem já cansou de seguir uma cartilha com a qual não cabe. Se vestir é colocar para fora, de fato, que se é”, explica Liliam na palestra Vestir-se de Si - Cultura, Referências e Poder na Construção da Imagem, na qual foi mediadora e recebeu as convidadas Carol Lardoza, historiadora e pesquisadora de Moda pela UFRJ e Andressa Cabral, sócia e head chef do Meza Bar e do Yayá Comidaria Pop Brasileira para um papo necessário e descontraído que contou com a participação do público.
Foi um espaço de encontro, troca, formação e experiência prática que passeou entre trajetórias profissionais e construção coletiva, propondo uma reflexão estratégica sobre imagem e posicionamento, vivência prática orientada e networking qualificado. Sobre a questão da ruptura de padrões, principalmente na moda em um contexto voltado para o ambiente de trabalho, e o encontro da própria identidade, Liliam ressaltou que a imagem vai além do vestir, ela significa a validação e a autenticidade de alguém, o quanto a própria pessoa se entende e como a moda faz sentido para ela, a partir de experiências vividas e construção de valores. “Você pode fazer uso do recurso da sua imagem, não para parecer com o que esperam, mas para mostrar que você tem consciência da trajetória que você construiu, do quanto você trabalhou no seu dom, o quanto você valoriza o seu dom, o quanto vc quer ser vista e conhecida pela sua forma de ser e existir no mundo”, disse. Para ela, a ideia é que toda vez que se fala de imagem disruptiva, trata-se “do empoderar”. “Quando falamos de empoderamento, estamos falando de reconhecer o poder que já existe dentro de nós. Retomar o próprio poder, não é sobre alguém que está concedendo-o. Quando a imagem disruptiva promove o movimento de empoderar escolhas, não é como se o poder estivesse na roupa e agora ele está sendo transferido para você. Ele está na sua história, na sua linha do tempo, e agora por você observar por outro ângulo, ensinou.
Carol Lardoza, que costuma se comunicar inclusive por meio da roupa que usa, endossa a fala de Liliam ao contar um pouco sobre sua história de vida. Moradora de Bangu, Zona Oeste do Rio de Janeiro, trouxe à memória o fato de ter crescido em uma casa em que a avó e a mãe eram costureiras e que, na época, a atividade não era percebida como “o fazer moda” mas sim, algo para complementar a renda. “Eu gostava das roupas que elas faziam, tinha essa relação íntima e afetiva, porém, achava que trabalhar com moda seria demais, já seria outro ponto que eu não conseguiria acessar. E dentro da História (curso de graduação), me reencontrei com a moda porque ela é um fenômeno social e historiográfico. Conseguimos entender partes marcantes da história brasileira através do vestir, nosso e de outras pessoas”, pontua.
Assim, com esse entendimento dentro da pesquisa em História, na UFRJ, Carol conseguiu fazer essa ponte entre moda enquanto política e economia, por exemplo. “E a partir disso a moda não saiu mais da minha vida…tanto na vivência familiar, na acadêmica e depois no espaço digital”, acrescenta. Hoje, ela realiza mestrado na área, pesquisando e experienciando um trabalho etnográfico em campo, com expositores da Praça XV que estão fazendo moda circular. “Brecholeiras, marcas autorais upcycling que vem de lugares diferentes do nosso território, desde a Baixada Fluminense, Zona Norte, Zona Oeste…pesquiso essa confluência da potência da moda e isso reverbera o que sou, o que eu visto”, contou ao frisar que o estímulo que a sociedade recebe a todo tempo pelo ‘novo’ no mercado da moda. "Quando fazemos o processo contrário, de respirar, ver o que já existe… não precisa resolver problemas e criar soluções…o futuro do design é olhar para o que já tem e tentar fazer com que as pessoas aprendam a escutar”, refletiu.
A chef de cozinha Andressa Cabral também dividiu um pouco de sua vivência desde a infância, época que morava em Santa Teresa, no Centro do Rio de Janeiro, e via a mãe e a avó, cozinheira profissional, tratar o ofício apenas como um dos meios de sobrevivência da família. Era uma criança com uma relação conturbada com a comida e a avó descobriu que ela só comia se o prato “fosse bonito”. Anos depois, ao participar da produção de um programa de TV sobre compulsão alimentar, começou a aprofundar toda a sabedoria da avó que foi líder de uma horta comunitária, mexendo no cerne do que se tornaria sua existência profissional. “Diziam: ‘preto não pode gostar de luxo, do bonito, tem que aceitar o que tem’...a minha relação com o belo começou a nortear de uma maneira tão certeira as minhas escolhas que ela foi se mostrando costurada por outras facetas de beleza. Na minha família, a moda estava ali estruturando o meu pertencimento nos lugares. Continuo não me achando uma pessoa da moda, mas ‘o vestir’ sempre foi uma linguagem para minha família e isso muito antes de entender que isso era real, eu só entendia como valor de família”, pontuou ao afirmar que hoje, não há um prato que faça que não vai tem tom, axé, e assinatura próprios. “Fui aprendendo a multifacetar as minhas linguagens…aprendemos vários ‘idiomas’ na vida. O vestir na gastronomia foi estruturante para eu me posicionar na profissão”, ressaltou. Ela precisou fazer inúmeras adaptações no seu primeiro uniforme para gastronomia, substituindo inclusive a touca pelo potente turbante feitos com tecidos africanos, os chamados ankaras. “Isso é preto expressando o orgulho de ser preto, com tipos diferentes de ser preto, com um cheiro de dendê, que é uma gordura de origem africana, e cabaça pendurada…cozinho de turbante, igual a pessoa baiana…a gente não está só no lugar do vestir não, são símbolos e signos (que nos definem)”, disse.
Depois do Confluência, o que fica é o incentivo de se apropriar da moda como uma potencializadora da imagem do que se é, carregando com ela todas as nuances e os valores identitários e, ainda, tomando a liberdade de mostrar várias versões de uma só pessoa. Aí é que está o famoso 'molho'.